
O panfleto cuja imagem podem ver aqui em cima (reprodução fiel, exacta, não adulterada e outros adjectivos que certifiquem que eu não tive qualquer intervenção no avacalhamento do mesmo) é um bom exemplo daquilo que ainda me motiva a levantar de madrugada, tirar a remela dos olhos e ir trabalhar (obviamente com mais uns quantos passos pelo meio, os quais não descrevo para não tornar isto fastidioso ou parecido com um qualquer desafio).
Receber pela manhãzinha publicidade deste calibre permite-me conservar um sorriso rasgado durante várias horas ou, na pior das hipóteses, até à primeira reunião do dia. Sempre admirei e invejei as pessoas que se aventuram a ter um negócio por conta própria, muito por culpa de não ter coragem para fazer o mesmo. No entanto, seria de esperar que quando alguém se decide a lançar-se no mundo dos negócios, e especialmente naqueles que são promovidos à conta de panfletos, gastasse uns cobres na revisão do material publicitário. Chamem-me de esquisito, mas parece-me que dar um erro no objecto do negócio, como as “Mundanças Raimundo – 25 Euros à hora” é condicionar desde logo as possibilidades de sucesso do empreendimento empresarial.
Mas voltemos ao panfleto em causa, e à sua escalpelização. Quando vi o título ainda pensei que fosse uma tentativa de inovar, dada a saturação que existe no mercado dos charlat..., perdão, dos consultores espirituais. Com efeito, esta “cunsultora” deixa antever o que é que ela consulta. Que foi? Há palhaços que conseguem antever o futuro nas entranhas dos peixes, porque é que uma “cunsultora” não pode ler o futuro aí mesmo, onde vocês acabaram de chegar? Pelo menos poderia sempre dizer “o seu futuro é negro, e não me cheira nada bem os acontecimentos que se avizinham!”.
Avançando na leitura do panfleto permite-nos concluir que os seus métodos não diferem em muito dos da restante cambada que por aí anda, isto apesar desta não ter o comum “dom hereditário”, seja lá o que isso for. Se bem que nesta parte eu acredito que eles falam a verdade, uma vez que devem ser todos da mesma família. Uma leitura mais atenta dos anúncios desta classe permite constatar que os textos são quase idênticos, e uma vez que muitos devem ocupar-se a desfazer os enguiços que o outro faz, aquilo na prática funciona em circuito fechado, como se fosse uma grande irmandade da intrujice.
No que toca às dificuldades da vida que esta espírita ajuda a resolver, não pude deixar de reparar numa em particular, a “traz de volta a pessoa amada”. Assim de repente ocorrem-me umas quantas situações em que a concretização desta promessa poderia trazer mais desvantagens que vantagens:
1ª Outra vez, Etelvina? Então estou eu numa reunião de negócios em Paris e tu fazes com que eu volte? Já é a terceira vez esta semana!
2ª Ó mãe, o padeiro que morreu no mês passado está outra vez estendido na soleira da porta!
Continuando a desvendar este maravilhoso panfleto, conclui-se que para além das tradicionais consultas com búzios, com tarot e com cartas, esta tipa também faz consultas com marcação. Por acaso fico curioso de saber que género de presságios ela extrai deste último item...
Por último, qual melancia em cima do queque, temos o aviso de que ela reside no país, pois as pessoas poderiam confundir o facto dela morar na Av. dos Estados Unidos da América e a estação de Metro ser a de Roma. Isto é bem sintomático do nível intelectual das pessoas que a consultam, motivo pelo qual optei por esconder os últimos dígitos dos telefones. Não olhem assim para mim, tenho em muito boa conta as pessoas que me visitam, mas também sei que de vez em quando aparece aqui com cada cromo que nem vos conto, mesmo daquele género que querem ter uma “cunsulta” com marcação...
Até sempre,
Rafeiro Perfumado