
O que é uma biografia, afinal? Supostamente a condensação em suporte escrito da história de alguém que terá feito em vida por merecer tal distinção (linda definição, não acham? Vá, podem usá-la em teses e testes de físico-química que eu deixo). Claro que o facto de agora os futebolistas e respectivos treinadores terem aderido a este formato tira um bocado o sentido à definição (especialmente se não estão associados a vitórias do Glorioso), mas mesmo assim ainda continua a ser a frase com a qual mais identifico biografia.
No entanto, e além do aparecimento de biografias de malta que claramente não produziu mais bem para o mundo que ajudar uma velhota a atravessar a rua (e por vezes na direcção contrária), constatamos que na realidade surgem compilações definitivas sobre montes de pessoal que continua vivo. Isto a mim parece-me claramente errado. Só se deveriam fazer biografias de alguém quando essa pessoa tivesse comprovadamente esticado o pernil, pois não se pode correr o risco de, após a publicação, o bibliografado sair por aí a a contradizer tudo o que foi escrito sobre ele. Em última instância, seria defraudar todas as pessoas que investiram as suas parcas economias para ficarem a conhecer toda a vida de alguém e o tipo continuar a acrescentar capítulos à sua vida, sem a correspondente actualização na biografia, que ficaria numa estante a ganhar pó, desactualizada e envergonhada, a não ser que utilizassem aquele sistema das enciclopédias, onde se vai metendo actualizações e erratas pelo meio da obra. Até já estou a ver:
- Na página 36, 3º parágrafo, onde se lê “esposo fiel e dedicado”, leia-se “depravado sexual que come tudo o que mexa”
- Na página 78, 1º parágrafo, onde se lê “político honesto e filantropo”, leia-se “corrupto da treta, que se houver justiça há-de bater com os ossos na choldra”
- Na página 456 (o exemplo é sobre alguém com uma vida grande), onde se lê “com a coragem que guiou a sua vida”, leia-se “cobardolas da tanga, que atropelou quatro velhinhas e dois putos ranhosos para ser o primeiro a sair do prédio em chamas”.
Mas falando a sério, restam-nos duas alternativas aceitáveis: ou a biografia termina com a palavra “continua...”, como naqueles filmes com sequelas em que sabemos que para ficarmos a entender a porra do enredo teremos de fazer mais uns downloads, perdão, assistir a mais uma sessão no cinema, ou então o biógrafo terá como último dever colocar um ponto final, quer no livro quer na vida do biografado. A última página seria então preenchida com a fotografia da campa, de preferência com um pedregulho em cima, não vá o tipo sair de lá e desatar a fazer parvoíces, como concorrer à Presidência da República. Digam lá que não seria um fim heróico:
Biografado: E foi então que eu lhe disse “Isso era se eu deixasse. Ha!Ha!Ha!”
Biógrafo: Fantástico, que vida sensacional o senhor teve, esta obra vai vender que nem ginjas!
Biografado: Assim espero, assim espero, se bem que o meu já cá canta, vou poder gozá-lo à vontade.
Biógrafo: Receio que não seja bem assim...
Biografado: Desculpe? Mas o que é que vai fazer com essa almofada? MFFMMM-MFFMMMM-MMMFF!
Até sempre,
Rafeiro Perfumado