Um destes dias, como em tantos outros, dirigi-me à Estação de comboios para apanhar o dito. É um acto que já está tão mecanizado no meu espírito que frequentemente dou por mim na plataforma sem me recordar do caminho feito até lá, tendo então o cuidado de observar discretamente se ainda não estarei de pijama ou pantufas. É que antes do primeiro café, confesso que pouca ou nenhuma atenção dou ao que me rodeia, tal a soneira / remeleira com que me movimento, sendo necessário algo de muito extraordinário para me fazer sair desse estado de letargia.
Por esta altura já devem ter suspeitado que foi isso que aconteceu neste dia, ou este texto arriscar-se-ia a ser uma longa e secante descrição do meu percurso até ao trabalho.
Como sempre fui colocar-me numa das filas que se constituem em pontos estratégicos, que coincidem normalmente com os locais onde a malta calcula que fiquem as portas do comboio. E eis que o momento mais aguardado acontece, a chegada do meio de transporte que me irá conduzir a mais um dia laboral. O comboio pára, a porta abre-se e eis que um grupo de três joves, vindos sabe-se lá de onde, entram à má fila no comboio, evacuando nas pessoas que insistem em respeitar as regras mínimas de convívio civilizacional.
Após entrarem, sentaram-se todos juntinhos, muito contentes com a proeza. A coitada de uma senhora, demasiado ingénua para a idade que aparentava, atreveu-se a dizer:
- Para a próxima vejam se respeitam a fila...
Esta frase teve uma resposta imediata por parte da moçoila que fazia parte do grupo, que disparou:
- Respeitar? Não fizessem filas, ora!
E foi então que o meu cérebro despertou. Não pela má educação, pois a essa já estou imune, de tanto conviver com ela, mas pela filosofia de vida presente nas palavras daquela vaca em miniatura. Pelo seu tortuoso raciocínio, eles apenas tinham desrespeitado uma regra de relacionamento porque a mesma não devia existir. Possivelmente preferiria que a entrada nos comboios fosse decidida à chapada, talvez mesmo pelo critério de quem rosnasse mais alto.
Se me apeteceu dar-lhe uma cabeçada? Garantidamente. Se me apeteceu atirá-la do comboio em andamento, no preciso momento em que passássemos por um poste? Seguramente. Mas o que eu gostaria mesmo era de lhe aplicar na pele a sua postura. Como? Uma enrabadela a sangue frio, por parte de todos os passageiros capacitados para tal. No fim, quando ela choramingasse agarrada à peidola, era dizer-lhe?
- Doeu? Não tivesses cu, ora!
Até sempre,
Rafeiro Perfumado