Assumo aqui publicamente que tenho um grande defeito: sou demasiado honesto. E acho bem que aquilo que eu ouvi em surdina aí atrás não tenha sido “só um?!?”. Bom, adiante, realmente às vezes sou tão honesto que até enjoa. Sou incapaz de receber troco a mais e não avisar (mesmo recebendo em troca um sorriso que grita TANSO com todos os dentes), é para mim inconcebível tentar andar num transporte público sem pagar, tentar entrar num local à socapa, etc.
No entanto, e observando a sociedade em que estou inserido, começo a sentir-me um bocado desenquadrado, já para não falar da desvantagem que tenho em relação à maioria. A sensação que se tem é que só não foge ao fisco quem não pode e só não faz “pequenas” sacanices quem é parvo. Sim, porque não bastava ser honesto, muitas vezes ainda se é gozado por o ser. Por exemplo, durante muito tempo fui uma das sete pessoas que em Portugal pagava os canais de cinema da Lusomundo, quando toda a gente à minha volta tinha boxs pirateadas. E não, não me vendi a essas boxs, acabei por desistir do serviço. É como a Playstation, devo ser o único imbecil que apenas tem quatro jogos, todos originais, porque se recusa a chipar a consola.
Mas eu pergunto, estarei assim tão errado em gostar de encostar a cabeça à almofada e adormecer profundamente, por saber que não devo nada a ninguém (tirando a casa ao Banco, claro)? Serei assim tão ingénuo por me recusar a abastecer de economato no emprego? Ou não aceitar tentativas encapotadas de suborno, do género favor-paga-favor? Ou não consumir bens dentro do hipermercado? Ou por meter dinheiro nos parquímetros quando estaciono em locais abrangidos por eles?
Vá, gozem lá com a minha inocência. Mas no dia em que estiverem a dormir e uma equipa SWAT vos invadir a casa, vos meter um pé no pescoço e apontando uma arma à cara perguntarem “foste tu que levaste três guardanapos do restaurante mesmo sabendo que só irias precisar de um?!?”, pode ser que então me dêem razão.
Até sempre,
Rafeiro Perfumado
Adenda
Fiquei preocupado com as reacções obtidas a este texto, pois parece que dei uma ideia demasiado angelical da minha pessoa. Quero deixar bem claro que também tenho a minha quota-parte em atropelamentos de velhotas em passadeiras, pontapés em pombos incontinentes e estaladões em putos ranhosos (além de outros pecados que não conto aqui para não correr o risco de ser processado/espancado)! Simplesmente não me orgulho desses actos (pronto, da maioria dos actos) e sei que se os evitar tenderei a ser melhor pessoa. Esclarecidos, companheiros delinquentes?