
O processo de entrar no barco foi giro, pelo menos a avaliar pela forma como a minha jove arregalou os olhos. Como a cada onda o barco subia e descia uma porrada de metros, os carros e os passageiros tinham de esperar que este estivesse no ponto mais baixo para correr para dentro dele. Mal começava a subir, parava tudo, não fosse acontecer alguma desgraça. Francis Obikwelo? Pfff, vocês é que não viram a velocidade com que a malta percorreu a rampa de acesso ao barco!
Chegados lá dentro, mais um drama: os bilhetes que tínhamos comprado (pronto, que eu tinha comprado) eram para uma zona do navio que, pasme-se, era no exterior, ou seja, teríamos de fazer toda a viagem ao relento, com um vento que parecia querer atirar-nos borda fora a qualquer momento. Bastou olhar para a jove para saber que, ou arranjava uma solução, ou a primeira visita a fazer quando chegasse a Portugal era ao advogado. Resolvemos ir lá para dentro, sentar-nos nas cadeiras mais ranhosas que encontrámos e esperar valentemente pelo revisor o qual, diga-se de passagem, nunca apareceu, nem sei bem se existia.
Quando os ânimos começaram a serenar, comecei a observar a fauna que nos rodeava. E que fauna, caros amigos. Soube mais tarde que aquele barco fazia a ligação entre as várias ilhas, sendo o mais económico, pelo que atraía toda a chungaria da zona, rafeiros turistas incluídos. A zona onde estávamos sentados era em forma de plateia, com os bancos tão próximos uns dos outros que podíamos sentir o bafo das pessoas que estavam atrás de nós. Compreendi que se queria chegar ao destino com a bagagem toda, não poderia dormir. O estranho é que os tipos que se sentavam atrás de nós iam rodando, se bem que tinham um denominador comum: eram albaneses e tinham um aspecto capaz de fazer o Zezé Camarinha passar por gentleman. Enquanto a jove ia dormindo (portou-se lindamente, só vomitou três vezes na primeira meia hora de viagem e mais quatro no restante tempo), eu ia fazendo um jogo de gato e rato com os mânfios:
- Vinha um mânfio e sentava-se atrás de nós
- Rafeiro levantava-se, encostava-se à parede, fixava o mânfio e fazia cara de mau
- Mânfio pirava-se
- Rafeiro sentava-se
- Vinha novo mânfio e sentava-se
- Rafeiro levanta, encosta à parede, fixa mânfio e faz cara de mau
- Mânfio pisca o olho ao rafeiro
- Rafeiro pira-se para bem longe mas sempre com um olho nas malas. E na jove, também vigiava a jove...
E pronto, mais piscadela menos cara de mau, foi assim que passei 16 horas. Sim, porque devido ao temporal, o barco atrasou-se, fazendo com que apanhar o avião, se era complicado, só fosse possível se o táxi chegasse ao aeroporto com a parte da frente incandescente.
Agora digam-me um coisa: qual é o maior desejo laboral de um taxista? Fazer um percurso grande, certo? Mas não na Grécia. Pelos vistos o aeroporto era muito longe do porto onde atracámos e não conseguimos convencer nenhuma daquelas bestas, por entre muito insulto em grego, inglês e português à mistura( acho que nunca mandei tanta gente levar na peidola como naquele dia). Já em desespero, optámos por nos afastar da praça de táxis e ir praticamente para o meio da estrada. Aí, atravessei-me à frente de um táxi, assim que ele parou meti as malas lá para dentro, entrámos, trancámos as portas e gritámos: TO THE AIRPORT! AND PEXIU!
O tipo foi um fofinho e lá nos levou, aproveitando para nos explicar que faz parte da mentalidade dos taxistas gregos não quererem ir para muito longe, ainda mais se estiverem perto de largar o turno. Depois admiram-se de levarem com a Troika...
Lá chegados, surpresa das surpresas, o avião já tinha partido há uns minutos. Nova ronda de telefonemas, para alterar todos os voos (acho que nunca falei tanto inglês, espanhol e supliquês como naquela viagem). Por esta altura estava sem dormir há mais de 24 horas, pelo que a prioridade era encontrar uma cama. Deixei a jove no aeroporto e fui até ao hotel que ficava mesmo em frente, para ver se arranjava quarto. Chegado à recepção, devia ter desconfiado que as coisas não iriam correr bem quando o tipo dá um passo atrás. Lá lhe perguntei o preço, disse-me que eram 180 €, depois o colega já dizia que eram 210 €, depois 240 €, sei que quando gritei “eu fico com ele, eu fico com ele!” o preço já ia nos 250 €. Só quando cheguei ao quarto e olhei para o espelho é que percebi: estava completamente despenteado, com a fralda de fora e umas olheiras que se arrastavam pelo chão. Confesso, eu não me deixaria entrar no hotel. Foi então que olhámos para a cama. Fofa. Grande. Lavadinha. Que só poderíamos ter até às 04:00 da madrugada, altura de fazer novo check-in. Foi um sono retemperador, apenas interrompido uma ou duas vezes quando acordava sobressaltado e olhava para a cabeceira da cama, à espera de lá ver um mânfio a piscar-me o olho.
Sim, conseguimos voltar a Portugal. Não, não há continuação desta história. E sim, o Ulisses ao pé do que eu passei é um menino.
Até sempre,
Rafeiro Perfumado