Cuidado com o Rafeiro! Não é que morda, mas podes pisá-lo sem querer...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Ulisses era um menino (parte última, que é para não dizer IV de III)

O processo de entrar no barco foi giro, pelo menos a avaliar pela forma como a minha jove arregalou os olhos. Como a cada onda o barco subia e descia uma porrada de metros, os carros e os passageiros tinham de esperar que este estivesse no ponto mais baixo para correr para dentro dele. Mal começava a subir, parava tudo, não fosse acontecer alguma desgraça. Francis Obikwelo? Pfff, vocês é que não viram a velocidade com que a malta percorreu a rampa de acesso ao barco!

Chegados lá dentro, mais um drama: os bilhetes que tínhamos comprado (pronto, que eu tinha comprado) eram para uma zona do navio que, pasme-se, era no exterior, ou seja, teríamos de fazer toda a viagem ao relento, com um vento que parecia querer atirar-nos borda fora a qualquer momento. Bastou olhar para a jove para saber que, ou arranjava uma solução, ou a primeira visita a fazer quando chegasse a Portugal era ao advogado. Resolvemos ir lá para dentro, sentar-nos nas cadeiras mais ranhosas que encontrámos e esperar valentemente pelo revisor o qual, diga-se de passagem, nunca apareceu, nem sei bem se existia.

Quando os ânimos começaram a serenar, comecei a observar a fauna que nos rodeava. E que fauna, caros amigos. Soube mais tarde que aquele barco fazia a ligação entre as várias ilhas, sendo o mais económico, pelo que atraía toda a chungaria da zona, rafeiros turistas incluídos. A zona onde estávamos sentados era em forma de plateia, com os bancos tão próximos uns dos outros que podíamos sentir o bafo das pessoas que estavam atrás de nós. Compreendi que se queria chegar ao destino com a bagagem toda, não poderia dormir. O estranho é que os tipos que se sentavam atrás de nós iam rodando, se bem que tinham um denominador comum: eram albaneses e tinham um aspecto capaz de fazer o Zezé Camarinha passar por gentleman. Enquanto a jove ia dormindo (portou-se lindamente, só vomitou três vezes na primeira meia hora de viagem e mais quatro no restante tempo), eu ia fazendo um jogo de gato e rato com os mânfios:
- Vinha um mânfio e sentava-se atrás de nós
- Rafeiro levantava-se, encostava-se à parede, fixava o mânfio e fazia cara de mau
- Mânfio pirava-se
- Rafeiro sentava-se
- Vinha novo mânfio e sentava-se
- Rafeiro levanta, encosta à parede, fixa mânfio e faz cara de mau
- Mânfio pisca o olho ao rafeiro
- Rafeiro pira-se para bem longe mas sempre com um olho nas malas. E na jove, também vigiava a jove...

E pronto, mais piscadela menos cara de mau, foi assim que passei 16 horas. Sim, porque devido ao temporal, o barco atrasou-se, fazendo com que apanhar o avião, se era complicado, só fosse possível se o táxi chegasse ao aeroporto com a parte da frente incandescente.

Agora digam-me um coisa: qual é o maior desejo laboral de um taxista? Fazer um percurso grande, certo? Mas não na Grécia. Pelos vistos o aeroporto era muito longe do porto onde atracámos e não conseguimos convencer nenhuma daquelas bestas, por entre muito insulto em grego, inglês e português à mistura( acho que nunca mandei tanta gente levar na peidola como naquele dia). Já em desespero, optámos por nos afastar da praça de táxis e ir praticamente para o meio da estrada. Aí, atravessei-me à frente de um táxi, assim que ele parou meti as malas lá para dentro, entrámos, trancámos as portas e gritámos: TO THE AIRPORT! AND PEXIU!

O tipo foi um fofinho e lá nos levou, aproveitando para nos explicar que faz parte da mentalidade dos taxistas gregos não quererem ir para muito longe, ainda mais se estiverem perto de largar o turno. Depois admiram-se de levarem com a Troika...

Lá chegados, surpresa das surpresas, o avião já tinha partido há uns minutos. Nova ronda de telefonemas, para alterar todos os voos (acho que nunca falei tanto inglês, espanhol e supliquês como naquela viagem). Por esta altura estava sem dormir há mais de 24 horas, pelo que a prioridade era encontrar uma cama. Deixei a jove no aeroporto e fui até ao hotel que ficava mesmo em frente, para ver se arranjava quarto. Chegado à recepção, devia ter desconfiado que as coisas não iriam correr bem quando o tipo dá um passo atrás. Lá lhe perguntei o preço, disse-me que eram 180 €, depois o colega já dizia que eram 210 €, depois 240 €, sei que quando gritei “eu fico com ele, eu fico com ele!” o preço já ia nos 250 €. Só quando cheguei ao quarto e olhei para o espelho é que percebi: estava completamente despenteado, com a fralda de fora e umas olheiras que se arrastavam pelo chão. Confesso, eu não me deixaria entrar no hotel. Foi então que olhámos para a cama. Fofa. Grande. Lavadinha. Que só poderíamos ter até às 04:00 da madrugada, altura de fazer novo check-in. Foi um sono retemperador, apenas interrompido uma ou duas vezes quando acordava sobressaltado e olhava para a cabeceira da cama, à espera de lá ver um mânfio a piscar-me o olho.

Sim, conseguimos voltar a Portugal. Não, não há continuação desta história. E sim, o Ulisses ao pé do que eu passei é um menino.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Não te estiques...


Ando desconfiado do comportamento do médico-radiologista que segue as glândulas mamárias da minha jove. Que a observe, que a meça e que a apalpe, eu até percebo, agora despedir-se dela com dois beijinhos (na cara!) não me agrada nem um bocadinho...

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Ulisses era um menino (parte III de III, se bem que se esta cena ficar muito grande ainda vai uma quarta)

Chegada a hora de partir e derramadas as lágrimas da praxe, lá pegámos nas malas e fomos para o aeroporto, constatando que a ventania continuava cheia de pujança. Ao falar com a menina do check-in pedi prioridade para as nossas malas, uma vez que chegados a Atenas teríamos apenas hora e meia para apanhar o avião seguinte. E eis que cai a bomba: todos os voos cancelados. Confusão, gritos, choro, histeria, o que vale é que os restantes passageiros mantiveram a calma, pelo que também tive de me controlar.
 
Corri para o balcão das informações, cujos dois guichets estavam ocupados por uma turista alemã gigante. Por entre espreitadelas laterais e saltos para conseguir ver por cima dos seus ombros, ficámos a saber que devido ao vento seria impossível a realização de qualquer voo, mesmo os charters, não havendo qualquer previsão de quando é que a situação iria ser normalizada. A única saída da ilha era via marítima, pelo que se seguiu uma corrida desenfreada para conseguir um dos poucos táxis disponíveis. Felizmente a jove tinha o estômago bastante dilatado e conseguimos prioridade na fila. Mentira, pá, acham que era capaz de algo tão baixo? Dei mas é um encontrão numa tipa que, além do estômago bastante dilatado, tinha um ranhoso ao colo, pelo que não conseguiu reagir antes do táxi já ter arrancado connosco lá dentro.

Chegados ao porto às às 14:07, deparámos com três alternativas:
1ª Um barco que tinha partido há sete minutos (e que ainda se via no horizonte), o que implicaria nadar à Tarzan durante algum tempo. Como tínhamos várias malas, preferimos olhar para as outras hipóteses.
2ª Um barco que saía às 17:00 e que demoraria três horas a chegar a Atenas, o que nos daria tempo, à tira, para apanhar o voo seguinte para Madrid, uma vez que o outro já era. Um pequeno senão: estava completamente cheio. Como os gregos se mostraram insensíveis a choros, ameaças e subornos (não necessariamente por esta ordem), restava-nos a hipótese final.
3ª Um barco que saía às 15:00, com a particularidade de demorar 15 horas até ao destino, ou seja, chegava a Atenas às 6 da madrugada, deixando-nos duas horas para chegar ao aeroporto, fazer o check-in e apanhar nova marcação para Madrid, entretanto alterado por um amigo meu que vivia em Atenas, e a quem entretanto tinha dado conta da nossa desgraça.

Mesmo tendo em conta a relativa fobia da jove a andar de barco (ainda mais atendendo ao estado em que o mar se encontrava, com vagas enormes e vento brutal), optámos pela única solução possível, pois de outra forma teríamos de passar uma temporada extra naquela ilha. Agora que penso bem, que grande urso eu fui...

E eis que chega o barco.

(sim, continua)

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Esta é para ti, Ghandi

Quando pensares que a solução está no uso da violência, lembra-te que alguém maior do que tu pode considerar-te o problema.
 
Até sempre,
Rafeiro Perfumado

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O Ulisses era um menino (parte II de III)

Imaginem um cenário idílico, com praias de areia branca, águas límpidas e quentinhas, palmeiras frondosas e uma fauna feminina bem abonada em atributos físicos. Agora voltem a imaginar mas num cenário que eu possa pagar e no qual não me arrisque a levar uma cabeçada da minha jove por olhar para onde não é suposto.

Se a vossa imaginação estiver minimamente centrada com a minha realidade, irão situar-me numa ilha grega, com uma vista deslumbrante, onde passei uma semana fabulosa, daquelas em que sentimos o stress que foi acumulado ao longo de um ano de trabalho abandonar o nosso espírito, qual borbulha alimentada a esteróides a abandonar o nosso corpo.

Apesar de tudo, esta viagem poderia ter começado mal. Como tínhamos de alugar carro, e de vez em quando dá-me para fazer as vontades da minha jove, resolvi alugar uma paixão dela, um Smart. Não sei se toda a gente está familiarizada com este tipo de carros, mas eu fiquei surpreendido quando vi que só tinha dois pedais. Democrata como sou, não achei bem que só o pé direito é que trabalhasse, pelo que na primeira recta que apanhei, resolvi experimentar travar com o esquerdo. O carro só não deu uma cambalhota por muita sorte, se bem que o tablier deve ter ficado com a marca das nossas testas. Mas pronto, tirando este percalço, a semana decorreu lindamente, e só não ponho aqui pormenores porque não é intenção deste texto fazer inveja a ninguém, além de que depois da pancada na cabeça comecei a ter dificuldade em recordar-me das coisas.

Mas, como tudo o que é bom não é eterno, aproximou-se o dia em que teria de abandonar o meu apartamento com vista para o mar, o meu jacuzzi borbulhante e a simpatia do casal gay que habitava ao meu lado. Em virtude da viagem ter sido integralmente organizada por mim, e por forma a poupar dinheiro, esperava-nos um voo ilha-Atenas, Atenas-Madrid e Madrid-Lisboa. Estávamos nós entretidos a enfiar as meias fedorentas nos recantos mais afastados da mala quando se levanta uma ventania descomunal, que nos privou da quase totalidade da caspa e nos ia arrancando o bronzeado tão arduamente conquistado.

E foi com aquelas condições climatéricas que nos fomos deitar, contentes pelo facto de o tempo estar a mudar e a sensação de tristeza pela partida ser atenuada. Às 06:53 da madrugada acordamos sobressaltados, com o som dos sinos a tocarem desordenadamente. A malta vê muitos filmes, pelo que pensando estar a aproximar-se algum perigo iminente, eis que saio a correr, ainda em trajes menores, para o pátio da casa (não sem antes verificar que o casal gay continuava recolhido). Uma breve análise em redor serviu para constatar que, à excepção de um gato, eu era o único ser vivo acordado e que, pelos vistos, desconhecia o costume grego de tocar os sinos durante a madrugada. Não me restou outra alternativa do que voltar para a cama, ainda estremunhado pela violência do despertar.

(continua)

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Eu sei que tu andas aí!

Os anónimos estão para os blogs como as aranhas para os carros: até pode passar algum tempo sem que sejam avistados, mas nós sabemos que andam por lá, à espera de fazer a sua teia.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Ulisses era um menino - Parte I de III

A Odisseia de Ulisses é uma das histórias clássicas mais contadas de todos os tempos, e uma das minhas favoritas. Numa análise puramente factual à mesma, pode dizer-se que se trata do relato das aventuras do rei de Ítaca, que foi combater na guerra de Tróia, guerra essa que foi ganha, em grande parte, graças ao seu engenho e astúcia, cujo exemplo mais famoso é o do cavalo de Tróia. Depois disso, passou uma porrada de anos no mar, enfrentando de tudo, desde monstros marinhos, Deuses, feiticeiras, sereias, políticos em campanha, enfim, uma tourada completa, até finalmente chegar à sua ilha, recuperar o seu trono e cair nos braços da sua amada, Penélope.

Parece lindo e romântico, não parece? Na prática, tratou-se de um gaijo que fugiu da mulher para ir para a borga com os amigos, e como se atrasou mais do que a conta e na altura não podia dizer que tinha ido comprar cigarros, teve de inventar a desculpa mais elaborada de que há memória. O gaijo até gigantes só com um olho meteu ao barulho, vejam lá, como se não estivesse mesmo à vista o que realmente se passou. Chega ao desplante de dizer que no caminho encontrou umas sereias que o tentaram seduzir com o seu canto, mas às quais conseguiu resistir. Por outro lado, não se pode dizer que a mulher tenha ficado a mofar em casa, pura e casta. Reza a lenda que coabitavam com ela uma porrada de pretendentes, sendo que para os dissuadir dos avanços fez a promessa de escolher um deles quando terminasse um bordado. Está-se mesmo a ver uma data de gaijos a olhar para uma boazona, esperando que ela desse o último ponto...

Mas esta conversa toda para quê? Para vos dizer que a aventura que eu vivi há uns tempos na Grécia faz o Ulisses parecer um menino que foi fazer um recado à mãe e se atrasou seis minutos. A minha história, essa sim, merece o título de epopeia, de odisseia, ou outra palavra gira terminada em “eia”, como aventureireia!

Continua...

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Não, não sou o único!

Os portugueses são uma raça muito dissimulada. Podia fazer aqui um enquadramento profundo deste raciocínio, mas não me apetece, pelo que vou directo ao assunto.

Fui informado pela minha conselheira meteorológica, a jove, que hoje iria chover como o catano, pelo que fui aconselhado a trazer um chapéu gigante. Qual não é o meu espanto quando chego à estação de comboios e portadores de chapéu eram eu e uma senhora com um ar muito envergonhado, ambos rodeados por palhacitos que olhavam para nós com desdém, como se fôssemos criaturas de outro planeta.

O que me chateia é saber que, mal caísse a primeira pinga, chapéus seriam sacados de todos os lados, e não estivesse eu com atenção até o meu marchava! Mas assim à primeira vista, aquilo é malta que está preparada é para ir para a praia, não para enfrentar um temporal.

Logo à tarde vou ter uma conversinha com a jove, que me aconselhou a levar o tal chapéu gigante, e não a habitual pasta onde guardo um pequeno. Tivesse eu evacuado nos seus conselhos e estaria todo contente, a olhar de forma superior para a senhora envergonhada, enquanto pensava «grande tansa, trazer chapéu com este tempo».

Até sempre,
Rafeiro Perfumado