Era um lindo dia de Setembro. Lá fora os passarinhos
cantavam alegremente, lá dentro os colegas trabalhavam, não tão alegremente mas
mesmo assim com afinco. O dia decorria sem sobressaltos, havendo a promessa
de terminar com um jantar na casa de amigos. Mas bastou uma consulta à agenda
para lançar uma sombra sobre a minha felicidade: tinha uma reunião marcada,
ainda por cima com um tipo.
Profissional como sempre, lá peguei na caneta e num bloco de
apontamentos e dirigi-me para a sala de reuniões, onde já me aguardava um jove ansioso
por me impingir o que quer que fosse que a empresa dele vendia.
Feitas as apresentações, sentámo-nos e cada um entregou-se
ao seu papel, ele a dissertar sobre as maravilhas das soluções fornecidas pela
sua empresa e eu a pensar no que seria o jantar mais logo. Foi quando o
primeiro pingo me acertou na mão. Qual Branca de Neve acordando de um sono
profundo, olhei para o tecto tentando ver de onde teria caído a gota que me
ocupava 3% da superfície da mão. Eis que de repente cai outra gota, na outra
mão. Comecei então a reparar que a mesa entre mim e o tipo estava completamente
sulfatada, e para meu horror, a origem era a boca dele. Desviei imediatamente o
olhar, pois não o queria envergonhar, mas o facto é que quanto mais ele se
entusiasmava a falar, mais perdigotos saltavam em todas as direcções. Retirei
elegantemente as mãos para longe do alcance perdigotal e resolvi distrair a mente com coisas mais
inofensivas, como imaginar os gritos que a senhora da limpeza ia dar quando
entrasse na sala ou tentar descortinar algum padrão nos perdigotos que iam sendo
projectados no tampo da mesa.
Eis quando, numa palavra com sílabas mais agudas, vejo um
perdigoto mais enérgico a sair disparado na direcção da minha cara. Desviar-me
bruscamente estava fora de questão, pois ainda me arriscava a dar-lhe uma
cabeçada, recuar não dava pois estava perto da parede, pelo que apenas me
restou esperar pelo impacto, e sem direito a venda.
O perdigoto veio alojar-se no canto inferior da minha lente
esquerda, formando uma linda bolinha. O resto da reunião foi passado comigo a tentar
não olhar para aquela zona e tentando não dar mostras de saber que ele sabia
que o perdigoto estava lá. Quando nos despedimos estava a ver que em vez do
habitual aperto de mão ele me abraçava desajeitadamente, para tentar apagar as
evidências do crime. Compreendem agora porque detesto ter reuniões?
Até sempre,
Rafeiro Perdigotado, perdão, Perfumado