Dentro da aberração que é a nossa Justiça, há um aspecto que me faz particularmente cócegas. Mas cócegas daquelas incomodativas, não daquelas provocadas pelo roçar do buço da nossa amada pelo pescoço acima!
Este aspecto cocegueiro materializa-se na diminuição das penas por “bom comportamento”, diminuição essa que representa normalmente metade da pena total. Vamos lá a ver... se alguém é julgado e condenado por um crime, é suposto pagar pelo mesmo, certo? E quando se diz pagar entende-se que a sentença considera apropriado ao crime um determinado período de tempo longe da malta cumpridora da lei. Ora o dito “bom comportamento”, na prática, subverte tudo isto. Se quisesse ser bem comportado que o fosse enquanto cá estava fora, catano!
No que é que consiste o bom comportamento lá dentro? Dizer bom dia? Esfregar bem a retrete quando arreia o calhau? Não rosnar à passagem dos guardas? É que se são cenas destas, no máximo levava uma palmadinha nas costas e um chupa, se bem que nestes exemplos, e pelo que consta do nosso sistema prisional, até pode ver-se envolvido neles sem se portar bem. Não concebo a ideia de alguém matar um ser humano, apanhar com 20 anos de prisão (no caso improvável das coisas correrem normalmente) e após 10 anos, só porque fez a cama todos os dias, já poder sair cá para fora. É que, acreditem, metade do mal que ele fez não desapareceu entretanto, ou arriscávamo-nos a ver muitas metades de pessoas a andarem por aí.
Eu porto-me bem no emprego e não é por isso que a empresa me permite reformar em metade do tempo que é suposto! Eu porto-me bem com a minha jove e não é por isso que só tenho de aspirar metade da casa e lavar metade da loiça! Eu porto-me bem com o Estado e não é por isso que me perdoam metade dos impostos! Posto isto, e se querem continuar com esta aberração, ao menos actualizem as penas. Matou alguém? Apanha 358 anos, assim caso se porte bem, não me chocará muito que saia ao fim de 179 anos...
Até sempre,
Rafeiro Perfumado






