Imaginem que entram num restaurante, sentam-se e um
empregado sorridente vem ter convosco, trazendo na mão o menu. Antes que possam
olhar para as opções, ele diz-vos, ainda com o mesmo sorriso:
- Temos um prato de carne e um de peixe, qual é que vai
querer?
Perante uma escolha tão limitada, digamos que vocês
escolhiam carne. Ao ouvir a resposta, o empregado perde o sorriso e retira-se.
Passados uns minutos, volta com o mesmo sorriso e volta a formular a mesma
pergunta. E esta acção repete-se até vocês escolherem a porra do peixe.
O que é que, na vossa opinião, seria mais correcto o cliente
fazer:
1. Levantar-se e abandonar o restaurante
2. Dar uma joelhada na fruta do empregado e obrigá-lo a
comer a ementa
3. Exigir que, uma vez terem-nos sido dadas duas opções, que
a nossa escolha seja respeitada
4. Dar-mos nós próprios uma alternativa, tipo salada
Esta cena nunca ocorreu comigo, felizmente, mas também só a
utilizei para figurar uma outra situação, essa bem real. Falo-vos da figura dos
referendos, supostamente uma das formas de auscultação democrática que existe
em Portugal. E digo supostamente porque para mim é dos maiores atentados que
podem ser feitos, quer à nossa liberdade quer à nossa inteligência.
Se repararem bem no curto historial de referendos feitos no
nosso país, estes são utilizados para submeter ao escrutínio popular uma
determinada ideia, que pelo seu interesse ou grau de divisão que provoca na
sociedade, entende-se dever ser esta a decidir da sua aplicação ou rejeição.
Mas o que constatamos é que, quando a ideia proposta é rejeitada, passados uns
tempos volta à carga, até que a mesma seja aprovada. Passou-se, por exemplo,
com a Lei do Aborto. E, espanto dos espantos, uma vez aprovada a ideia pretendida, deixa de ser
passível de retrocesso. A isto eu chamo manipulação, ou pelo menos algo que não
tem nada a ver com um Estado de Direito democrático. E já nem falo da
manipulação ao nível da construção da pergunta...
É por isso que nunca votei num referendo e continuarei a não
votar, pois entendo não pactuar com palhaçadas. E a única coisa que me chateia
é aqui não poder aplicar a opção 2. Ah, relativamente ao referendo que aí vem,
sou a favor da co-adopção por parte de famílias com o mesmo sexo, só não sou a
favor que me venham com palhaçadas de referendos.
Até sempre,
Rafeiro Perfumado
