É sabido que a maioria dos homens tem um problema genético no que toca a decorar datas de acontecimentos, com a honrosa excepção dos anos em que o seu clube ganha o campeonato, claro. No entanto, há outra situação em que a memória machual é bastante apurada: a referente aos carros que já possuiu (aplicando este verbo poderia falar aqui de outro aspecto em que a memória é igualmente boa, mas vou-me manter na área automobilística, ok?), chegando mesmo ao pormenor de se lembrarem da cor, modelo, quilometragem, matrícula e outros pormenores parvos.
Até eu, que não ligo nenhuma a carros, me lembro perfeitamente do meu Fiat Punto, do meu VW Polo e de outro que assim de repente não me recordo da marca, mas sei que era giro. Aposto que as gaijas devem ter ciúmes do relacionamento que alguns homens têm com a sua viatura. Evitam passar por poças para não a sujar, dão-lhe banho todos os Domingos, polindo-a com carinho, não deixando escapar nem um pedacinho de fuselagem que seja, aspiram-na, protegem-na dos pássaros incontinentes, ameaçando terminar com a espécie se algum lhe acerta em cheio... Agora experimentem ir ao lado de um homem e um pássaro cagar-vos em cima. Todos nós sabemos qual é a nossa reacção, não é? Mas também é verdade que logo que nos passa o ataque de riso nos prontificamos a auxiliar na limpeza, ou pelo menos a sacrificar o nosso lenço!
Eu acredito convictamente que devem mesmo haver tipos que na sua carteira trazem fotografias do seu carro, para mostrarem aos parentes e amigos, enquanto produzem frases como estas:
- Vê esta, vê esta! Tinha acabado de o ir buscar ao stand, diz lá se já viste coisa mais linda!
- Esta foi tirada quando fez a primeira revisão. Portou-se tão bem, pá, nem imaginas o orgulho que senti!
- Ah, esta tirei num dia complicado, até se nota que está com mau ar, tadinho. Apareceu-lhe a primeira ferrugem, passei duas noites em claro...
Perto da casa da minha irmã morava um tipo que todo o santo Domingo descia à rua, tirava a capa ao carro, lavava-o e encerava-o até metade da vizinhança ficar cega com o brilho, voltando depois a aconchegar-lhe a capa, só faltando o beijinho. Este comportamento, já de si bastante parvo, assumia contornos macabros por causa de um pormenor: o carro não andava há já uns anos. Mas como este caso existem muitos por aí fora, só isso pode justificar o facto de tanta gente insistir em manter o seu carro velho à frente de casa. É o amor a ir demasiado longe, pois não suportam separar-se deles, optando por atulhar as estradas e ruas com monos inúteis. Pese o carácter ecológico da coisa, por causa do matagal que cresce por baixo destes carros, não deixa de ser uma situação grave, uma vez que vai tirando lugar aos carros que ainda estão vivos e de saúde.
Vá, sejam fortes, dêem um fim condigno ao vosso carro, entreguem-no a quem melhor pode tratar dele nesta fase da sua vida. Façam de conta que vão meter o avô no lar, e se quiserem até podem continuar a visitá-lo aos Domingos. Convém é não se esquecerem de qual cubo de metal corresponde ao vosso carro...
Até sempre,
Rafeiro Perfumado