Próximo poste 22 de Julho (ou noutro dia que me apeteça) - Expressões estranhas, para não dizer estúpidas

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Férias não implicam bronze, ok?!?


Começa a enervar-me profundamente aquela malta que se chega ao pé de mim, olha-me de alto a baixo e depois pergunta “então, já foste de férias?”. Perante o meu ar de enfado e resposta afirmativa, vem então a verdadeira estupidez “ah, é que não estás nada queimado”.

Agora digam-me lá: desde quando ir de férias é sinónimo de ficar bronzeado? E se me apetecer ficar em casa a blogar 24 horas por dia? Além de ser uma estupidez completa, não deixariam de ser férias, e com poucas probabilidades de bronzeamento, a não ser que eu colocasse o brilho do monitor muito forte. E se me apetecesse ir fazer mergulho para uma fossa abissal? Além de um muito provável adelgaçamento do corpo, não haveria muitas mais provas de que eu tivesse estado de férias, especialmente ao nível da cor! Poderia falar também dos perigos que a exposição excessiva ao sol cada vez mais apresenta, especialmente ao nível daquela malta para quem um protector Factor 4 é excessivo, mas nem me vou dar ao trabalho...

Nem sei como é que há tantos sentimentos racistas por esse mundo fora, quando se vê que as pessoas ficam todas inchadas quando lhes dizem “epá, grandes férias que deves ter tido, vieste preto”. Será que quando um gaijo leva um enxerto de porrada também passa por turista? E qual será a fronteira que separa, para um racista, o elogio da ofensa?

Quer dizer, lá por eu não ter como ideal de férias lutar por um lugar numa praia, ser colocado num espeto e ir sendo virado ritmadamente, enquanto me vão colocando temperos em cima, isso não quer dizer que eu não tenha tido férias, quer apenas dizer que não tenho vocação para foca ou frango de churrasco. Lembro-me de num sítio onde vivi existir um homem que ia para a praia e colocava palitos entre os dedos dos pés, para obter um bronzeado integral. Se esta ideia já é suficientemente repulsiva, agora imaginem-no o dia todo na toalha, a girar na direcção do sol... é este a vossa ideia de prova de que se teve férias? Prefiro meter os dedos na ficha e aí sim, ficar com um visual queimado.

E quanto ao pessoal que trabalha e se bronzeia só nos braços e cara, será que podemos dizer que tiveram férias em part-body? É que se for assim, os motoristas e os agricultores são das classes mais privilegiadas que existem! Então os mineiros que exploram o carvão, bem, esses nem salário deviam receber, tal a delícia de vida veraneante que levam!

Já estou mesmo a ver o dia em que eu resolva fazer férias ao banho, ao fim de duas semanas devem olhar para mim e dizerem “Jove, grande bronze, isso foi nas Maldivas?!?”. Não fosse pelo cheiro me denunciar, era bem capaz de dizer que sim.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

PS: por falar em férias....

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Vou começar a levar um pára-quedas


Recentemente um piloto de avião morreu de ataque cardíaco. Até aqui nada de extraordinário, não fosse o facto de ter sido em pleno voo e com 247 passageiros a bordo (ver notícia completa aqui, que não me pagam para fazer de serviço noticioso).

Nem consigo imaginar a sensação que será ir num passaroco de metal, a quilómetros de altitude e a pessoa responsável pela nossa segurança ir desta para melhor. Acho que na pior das hipóteses era caso para começar a olhar de forma gulosa para as hospedeiras, já que o fim se aproximava. Mas consigo imaginar alguns dos diálogos alternativos que poderiam ter ocorrido nesse avião:

Diálogo 1
- Senhores passageiros, daqui fala o co-piloto. Estamos neste momento a sobrevoar os Açores, e se olharem para a direita poderão ver a ilha do Pico. Se olharem para a vossa esquerda, poderão ver o nosso ex-comandante, em plena manobra de ascensão.

Diálogo 2
- Senhores passageiros, daqui fala o co-piloto, para vos transmitir algumas informações sobre o nosso voo. Encontramo-nos neste momento a uma altitude de 10.000 metros, com uma velocidade de cruzeiro de 900 quilómetros por hora. Estimamos chegar a Newark por volta das 18 horas e 15 minutos, hora local. A temperatura é de 18 graus, com algumas nuvens. Os passageiros que tiverem voos de ligação é favor assim que aterrarem contactarem com o nosso pessoal de terra. Ah, e o comandante morreu.

Diálogo 3
- Senhores passageiros, temos a lamentar o falecimento do nosso comandante. Por favor não se preocupem, pois a restante tripulação está perfeitamente habilitada a manobrar o avião. Em seguida vamos dar início às nossas vendas a bordo, onde além dos artigos presentes no catálogo poderão adquirir algumas das peças que o comandante usava e de que já não necessitará.

Diálogo 4
Censurado sob ameaça de passar os próximos tempos no sofá, mas posso dizer que envolvia as refeições servidas na classe turística

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Que espécie de fruta és tu?


Uma das facetas mais intrigantes do ser humano é a necessidade que sente em comparar-se com outras coisas. Talvez por num passado recente termos andado a correr e a saltar por prados verdejantes atrás de comida ou fugindo de algum predador, a realidade é que temos a mania de “animalizar” certas características humanas, dizendo que fulano é forte como um urso, lento que nem um caracol, venenoso como as cobras ou estúpido que nem um deputado.

Até aqui tudo bem e, por muito que isso vos possa chocar, não me desagrada este género de comparações, ainda mais quando no meu caso até são envolvidos animais que considero fofinhos, como a lombriga ou o morcego. Mas tudo muda de figura quando o reino animal é substituído pelo vegetal. São diversas as expressões em que são atribuídas a pessoas supostas características de frutos e vegetais, sendo que na maior parte das vezes tenho muita dificuldade em compreender a associação, fazendo com que eu me sinta uma autêntica noz moscada. Mas passemos aos exemplos:
- Mariquinhas pé de salsa. Esta expressão atira-se a alguém que é medricas, sem coragem, e presumo que não haja aqui qualquer conotação com orientações sexuais. No entanto, esta “ofensa” é, no mínimo, estranha. Se chamarmos mariquinhas a alguém, como é um termo terminado em “inhas”, o destinatário até pode sorrir, pois chega a ser carinhoso, levemente provocador. Agora adicionem-lhe um condimento e o caldo está entornado! E porque é que a escolha caiu na salsa? Porque não mariquinhas pé de rosmaninho, ou mariquinhas pé de tomilho? Será a salsa assim tão cobardolas que mereça ser associada à cagufa?

- De pequenino se torce o pepino. Que é como quem diz, é desde tenra idade que se começa a moldar a personalidade. O que é isto, pá? Então compara-se a personalidade a um pepino?!? Ainda mais com um formato fálico? E vamos lá a ser práticos, se é para torcer alguma coisa em pequeno, que seja o pescoço, caso se veja que dali sairá um terrorista ou Presidente de Câmara! E não me agrada nada a ideia de estar a comer uma saladinha de pepino e pensar que estou a mastigar personalidade, ainda mais se alguém disser “bem, esta salada tem uma personalidade incrível, não achas?”.

- Vermelho que nem um tomate. Costuma dizer-se de alguém que, perante uma situação embaraçosa, fica com as faces ruborizadas. Também pode aplicar-se a outras situações, como exposição excessiva ao sol, mas dá-me mais jeito considerar apenas o primeiro cenário. Mas porquê tomate? Não há mais nada vermelho na natureza? E para ser exacto, não teria de se dizer “vermelho que nem um tomate maduro”? É que não só há espécies de tomates (e não, não estou a falar desses) que não são vermelhas, como mesmo as que são podem não ter essa coloração no momento. A intenção não é embaraçar ainda mais a pessoa vermelhusca? Pois então diga-se que ficou vermelha como o cu de um babuíno, garanto que o potencial de gozo é bem maior!

- Cabeça de alho chocho. Designação das pessoas que não foram bafejadas com massa encefálica ou, se a têm, não sabem ou se esquecem de a utilizar, tendo uma apetência para se esqueceram de tudo. Eu compreendo que alguém que tenha um alho chocho no lugar da cabeça não consiga pensar de forma brilhante, mas isso não acontecerá se lá colocarmos qualquer outro objecto que não o crânio? E o acrescentar que o alho está chocho, é para prevenir aqueles casos em que a pessoa é simplesmente cabeça de alho e consegue mesmo assim raciocinar?

- Fresco que nem uma alface. Costuma dizer-se isto quando alguém se sente alegre, revigorado, pronto para enfrentar a vida. Joves, vamos lá a ver se nos entendemos. Quando uma alface está neste ponto, costuma estar prestes a ser esfrangalhada, metida numa orgia vegetal com tomates, pepinos e afins, além de ser regada com azeite e vinagre. É nesse estado que consideram estar prontos a enfrentar a vida? É que se for assim, da próxima vez que eu quiser motivar alguém puxo do galheteiro, a pessoa pode não ficar retemperada, mas temperadinha, fica de certeza!

- Vai à fava. Quando queremos que alguém (figurativamente ou não) nos desampare a loja, esta é uma das expressões possíveis. Eu reconheço que não sou grande conhecedor da disposição duma horta, mas estou em crer que o faval deve estar tão distante como o batatal, o cenoural ou o beterrabual. Se a intenção é mostrar que estamos irritados, não seria melhor dizer “vai à melancia” ou “vai à abóbora”? Cumpriríamos o objectivo de ver essa pessoa pelas costas e sempre lhe dávamos mais trabalho.

- És um banana. Típica frase que se atira a quem é um tipo mole, sem iniciativa, com pouca ou nenhuma capacidade de argumentação. Note-se que se masculiniza o fruto, o que só poderá ser explicado pela sua forma anatómica. Mas pegando nesse facto, e sabendo a utilização que certas pessoas dão a esta fruta, será que a característica “mole” é adequada? E quando se diz isso de alguém, entende-se que a banana tem ou não casca? É que pode fazer toda a diferença, ainda hoje me lembro daquele programa do Jô Soares em que se descascava uma banana e saía de lá uma mulher toda boa. Será que é essa a intenção, dar a entender que se tirarmos a roupa a um homem banana sai de lá uma jeitosa? Eu sei quem é que não vai averiguar isso...

- Que grande nabo. Costuma dizer-se de alguém que não tem habilidade nenhuma, que faz as coisas atabalhoadamente. Vamos lá a ver, quem foi o cientista genial que colocou vários frutos numa bancada, com um puzzle à frente, e verificou qual era o que mais rapidamente o resolvia. É que só pode ter sido assim que se chegou à conclusão que o nabo era o mais nabiça! Ou então colocou vários frutos a conduzirem, a ver qual é que provocava mais acidentes. Aí realmente o nabo tem uma certa desvantagem, muito por culpa da ramagem bater no tejadilho e lhe tapar a visão, não ter braços para o volante e só poder pisar num pedal de cada vez.

- És boa como o milho. É um piropo que se costuma atirar a uma jove que é boazona. Sendo assim, preocupa-me a ideia de alguém passar por um milheiral e ficar excitado, a murmurar frases como “uuuuui, tanto milho bom, se me vou a ti até te faço em farinha”. Mas que carga sensual ou sexual é que pode ser atribuída a um simples grão de milho (não falo da espiga em si porque aí não faltariam palpites)? Por ser pequenino? Por ser amarelo? Por causa de, quando aquecido, transformar-se em pipoca? Se assim fosse, era a malta começar com intimidades com uma mulher, davam-lhe os calores e tínhamos de a ir buscar ao tecto!

Dito isto, façam-me um favor, mantenham as comparações no reino dos bichos, pois de outra forma só me conseguirão enervar ao ponto de eu tremer que nem varas verdes!

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

PS: Estive tentado a falar também da expressão "isso dava pano para mangas", mas sei que o texto já vai longo e a maior parte das pessoas não tem tomates para ler tudo. Que foi, se calhar queres dar-me uma pêra, não?

Domingo, 14 de Junho de 2009

Obrigado, malta!

Esta é a segunda e última vez que aqui falarei directamente sobre o livro Are you ladrating to me?!?, pois tenho a convicção de que um blogue não pode tornar-se um mero canal publicitário de coisas passadas, sob pena de matar a sua identidade e razão de ser. Assim, caso não tenham tido a oportunidade de presenciarem um dos quatro lançamentos realizados em Lisboa, Porto, Coimbra e Faro, mas ainda assim tenham interesse em ter um exemplar, vejam ali na barra lateral para se inteirarem das alternativas existentes. Se por acaso tiverem uma vida social menos preenchida e quiserem ter uma ideia aproximada do que foi dito nas apresentações, poderão ouvir uma entrevista no blogue Falas que nem uma besta, que parece ter sido baptizado em minha homenagem. E, no que toca à promoção do livro, acabou aqui.

Mas claro que não poderia deixar passar em claro todo o apoio que me foi dado, neste momento tão significativo para mim. Fosse pela presença, fosse pelas palavras de incentivo que me enviaram, fosse pela promoção que fizeram ao meu filhote inúmeras pessoas deram-me uma demonstração enorme de amizade, a qual, garanto, não esquecerei. A todos, sem excepção, o meu muito obrigado! De igual forma tenho de deixar aqui um beijinho especial para a Paula Vilar, Ka, Foryou e Van, que aceitaram o convite que lhes fiz e apresentaram brilhantemente quer o livro quer o autor (não, não vou referir os engasganços, tremeliques e tentativas de cobrar comissões). E tenho igualmente de pedir desculpa às pessoas a quem não reconheci, a quem troquei o nome, às meninas a quem por erro dei um abraço e aos meninos a quem dei... Não, acho que o nervosismo não chegou a tanto, pelo menos não me lembro de ter visto algum com um sorriso rasgado.

Mas nada vale a pena se não aprendermos algo no processo, e acreditem que eu aprendi bastante. Aprendi que pessoas que nunca me viram foram capazes de sacrificar parte do seu tempo livre para me apoiarem. Aprendi que pessoas que moram a centenas de quilómetros se deslocaram para me darem um olá ou um abraço. Aprendi que a blogosfera não pára de me surpreender e que está recheada de pessoas fantásticas. E aprendi que “amigos” que eu conheço há muitos anos pura e simplesmente ignoraram este marco importante da minha vida. A estes últimos... não, não vos vou mandar levar na peidola ou coisa do género, aliás quero agradecer-vos. Elucidaram-me de vez que o tempo não é sinónimo de amizade, e que por vezes há que ter a coragem de cortar amarras que nos prendem ao passado. Vocês já o fizeram, eu seguirei o vosso exemplo. E a vida continua...

Até sempre,
Jorge

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Ena pá...


Acho piada às pessoas que tentam impressionar outras ao dizerem o quão rapidamente percorreram determinada distância. Quer dizer, na realidade, e tirando a palavra “quão”, não acho grande piada ao que acabei de dizer. É que essas façanhas são normalmente conseguidas à conta de transgressões, as quais colocam muitas vezes em risco quer a segurança do autor da proeza quer, principalmente, a quem a ela assiste.

Aliás, desconfio que é aí que reside o verdadeiro motivo de orgulho, o poder dizer aos outros “vês como eu sou um radical destemido? Infrinjo as regras e vivo para contar”. É apenas justo eu fazer-vos uma confidência: quando o destinatário da tentativa de impressionar sou eu, costumo responder “Ena pá...”, o que normalmente desencadeia um sorriso de orgulho na outra parte. Mas, se estiverem com atenção, conseguem ler o que eu não disse, que é a frase que se segue às reticências, “... mas que grande palhaço.” Aliás, se estiverem com muita atenção, até conseguem ver a bola que se forma no cimo da minha cabeça, com a imagem de um palhaço (daqueles com um nariz vermelho enorme) e uma seta que aponta, adivinhem, na vossa direcção.

Querem impressionar-me verdadeiramente? Digam-me que conseguiram fazer as compras do mês com 187 euros. Digam-me que conseguiram encontrar em Agosto uma praia em que a densidade populacional era menor que seis pessoas por metro quadrado. Digam-me que conseguiram com que o vosso Banco baixasse o spread do empréstimo da casa. Digam-me que têm a certeza que o SLB vai ser campeão para o ano. Irão fazer-me rir, mas pelo menos a minha consideração por vocês não irá baixar. É que os palhaços eu desprezo, os sonhadores eu admiro.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

Biografou, quinou!


O que é uma biografia, afinal? Supostamente a condensação em suporte escrito da história de alguém que terá feito em vida por merecer tal distinção (linda definição, não acham? Vá, podem usá-la em teses e testes de físico-química que eu deixo). Claro que o facto de agora os futebolistas e respectivos treinadores terem aderido a este formato tira um bocado o sentido à definição (especialmente se não estão associados a vitórias do Glorioso), mas mesmo assim ainda continua a ser a frase com a qual mais identifico biografia.

No entanto, e além do aparecimento de biografias de malta que claramente não produziu mais bem para o mundo que ajudar uma velhota a atravessar a rua (e por vezes na direcção contrária), constatamos que na realidade surgem compilações definitivas sobre montes de pessoal que continua vivo. Isto a mim parece-me claramente errado. Só se deveriam fazer biografias de alguém quando essa pessoa tivesse comprovadamente esticado o pernil, pois não se pode correr o risco de, após a publicação, o bibliografado sair por aí a a contradizer tudo o que foi escrito sobre ele. Em última instância, seria defraudar todas as pessoas que investiram as suas parcas economias para ficarem a conhecer toda a vida de alguém e o tipo continuar a acrescentar capítulos à sua vida, sem a correspondente actualização na biografia, que ficaria numa estante a ganhar pó, desactualizada e envergonhada, a não ser que utilizassem aquele sistema das enciclopédias, onde se vai metendo actualizações e erratas pelo meio da obra. Até já estou a ver:
- Na página 36, 3º parágrafo, onde se lê “esposo fiel e dedicado”, leia-se “depravado sexual que come tudo o que mexa”
- Na página 78, 1º parágrafo, onde se lê “político honesto e filantropo”, leia-se “corrupto da treta, que se houver justiça há-de bater com os ossos na choldra”
- Na página 456 (o exemplo é sobre alguém com uma vida grande), onde se lê “com a coragem que guiou a sua vida”, leia-se “cobardolas da tanga, que atropelou quatro velhinhas e dois putos ranhosos para ser o primeiro a sair do prédio em chamas”.

Mas falando a sério, restam-nos duas alternativas aceitáveis: ou a biografia termina com a palavra “continua...”, como naqueles filmes com sequelas em que sabemos que para ficarmos a entender a porra do enredo teremos de fazer mais uns downloads, perdão, assistir a mais uma sessão no cinema, ou então o biógrafo terá como último dever colocar um ponto final, quer no livro quer na vida do biografado. A última página seria então preenchida com a fotografia da campa, de preferência com um pedregulho em cima, não vá o tipo sair de lá e desatar a fazer parvoíces, como concorrer à Presidência da República. Digam lá que não seria um fim heróico:
Biografado: E foi então que eu lhe disse “Isso era se eu deixasse. Ha!Ha!Ha!”
Biógrafo: Fantástico, que vida sensacional o senhor teve, esta obra vai vender que nem ginjas!
Biografado: Assim espero, assim espero, se bem que o meu já cá canta, vou poder gozá-lo à vontade.
Biógrafo: Receio que não seja bem assim...
Biografado: Desculpe? Mas o que é que vai fazer com essa almofada? MFFMMM-MFFMMMM-MMMFF!

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 20 de Maio de 2009

Gaijas, pá, os tipos queriam gaijas!

O ambiente nas trincheiras estava terrível. Como se não bastassem os constantes bombardeamentos efectuados pelo inimigo e a chuva contínua que impedia a malta de se bronzear, era notório que os soldados estavam tensos, com a moral em baixo, com pouca fé no seu futuro. Sentia-se que bastaria um traque mais mal-cheiroso e a debandada seria despoletada sem dó nem fá.

Sabedor desta realidade, e sendo um condutor de homens por excelência (fruto da sua larga experiência como motorista da Carris), o General tinha incumbido o seu melhor homem de ir à povoação mais perto, para trazer “algo” que animasse as hostes.

No entanto, o tempo voava e do Cabo Etelvino nem notícias nem nada. As gotas de suor corriam agora pelo pescoço do General, de uma forma abundante e quase contínua, mesclando-se no chão com outros fluidos corporais que deixara entretanto escapar por ocasião de uma explosão mais próxima.

Mesmo tendo sido treinado a não temer o desconhecido e a exercer um completo auto-domínio, aquela expectativa estava a dar cabo de si. Já começava a imaginar formas de espancar o Cabo Etelvino, com requintes de malvadez e umas pitadas de rotice, quando este assomou, ofegante, à porta do bunker. Suspirou profundamente, não sabendo se de alívio se de desilusão, por não poder concretizar a sua fantasia espancatória...

General: Então, Cabo Etelvino, porque raio demoraste tanto tempo?
Cabo Etelvino: Meu General, aquilo lá fora está lixado, é só tiros, bombas e a estrada tinha uns quantos buracos! E ainda tive de dar voltas e mais voltas até encontrar o que me pediu!
General: Pronto, está bem, o que importa é que já cá estás. Mas onde é que estão as gaijas?
Cabo Etelvino: Gaijas, meu General?
General: Sim, pá, então não te mandei buscar umas quantas gaijas à cidade para animar aqui a tropa?!?
Cabo Etelvino: Disse para eu ir buscar algo que animasse a malta, mas não me falou nada sobre meninas...
General (começando a ficar vermelho): Então e o que é que haveria de levantar o ânimo e não só, o jornal A Bola com os últimos resultados do Benfica, não?!?
Cabo Etelvino: Não, meu General, mas sinceramente nunca me passou pela cabeça trazer meninas...
General (bastante vermelho): Agarra-me que eu dou cabo de ti! E então o que trouxeste tu para impedir esta cambada de cobardolas de se pirarem a correr para casa da mamã?!?
Cabo Etelvino: Bem, trouxe uns baralhos de cartas, o mikado, uns manuais de ponto cruz e este livro, que segundo me disse o senhor do quiosque é o novo do Rafeiro Perfumado...
General (já com uma cor engraçadinha): Ah, pronto, já podias ter dito, pá! Venham daí esses ossos, Cabo Etelvino. Cabo? Major Etelvino! Coronel Etelvino! Futuro genro! Filho! Amor da minha vida!

Apesar de eu próprio achar que a opção do Cabo Etelvino não terá sido a mais inteligente, é com muito prazer e mesmo alegria que vos comunico o lançamento do livro Rafeiro Perfumado – Are you ladrating to me?!?.


Qual maratonista correndo pelas estradas de Portugal, estarei presente nos seguintes dias e locais para apresentar esta nova aventura “literária”:

31 de Maio – Lisboa - Bertrand - Av. de Roma - 16H:07M

6 de Junho – Porto - Bertrand - Norte Shopping - 16H:06M

7 de Junho - Coimbra - Bertrand - Dolce Vita - 16H:08M

13 de Junho - Faro - Bertrand - Forum Algarve - 16H:04M

O Rafeiro Perfumado – Are you ladrating to me?!? tem aproximadamente 176 páginas (note-se o crescimento abismal em relação ao primeiro), contando com 81 textos, numa mescla do best of da actividade do blog com 20 textos originais, os quais, com grande pena minha, nunca serão publicados neste espaço.

Caso vos seja possível estarem presentes numa destas apresentações (quem for às quatro ganha um lugar de destaque na minha galeria de ídolos, ali mesmo entre o Zé Colmeia e o avô da Heidi), terei muito prazer em apertar-vos a mão ou dar uma beijoca, tentando respeitar sempre o género, coisa que não garanto dado o estado nervoso em que me devo encontrar. Mesmo sendo conhecedores desse risco, espero sinceramente poder contar com a vossa presença.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Lar, doce Lar


Num já distante dia, entretanto comido pelo tempo e pelas traças, tive a ideia de escrever sobre os “bastidores do Rafeiro Perfumado”, que seria assim a modos que uma descrição do meu habitat natural, isto é, a minha casa e a vivência na mesma. No entanto, consciente de que tal ideia me poderia trazer problemas, porrada ou mesmo (mais) uma temporada a dormir no sofá, optei antes por relatar o meu dia a dia no meu lar. Sim, eu sei que é a mesmíssima coisa, mas pode ser que assim a coisa escape, a jove nunca lê isto com muita atenção, pexiu...

Ter uma vida a dois harmoniosa nem sempre é fácil, ainda mais quando por vezes a visão de cada um sobre o mesmo assunto é completamente oposta. Se um considera que a roupa está desarrumada e espalhada pela casa, o outro pensa que a roupa está apenas a jeito de ser vestida. Se um vê sujidade nos vidros, o outro vê apenas um meio de nos protegermos do excesso de exposição aos raios solares. Se um acha que a casa está cheia de pó, o outro acha que está aconchegante e familiar, pois a maior parte do pó resulta da decomposição da nossa pele. Claro que se estão à espera que eu diga quem é o um e quem é o outro, estão muito enganados, que este outro não se vai desbroncar!

Mas pronto, ultrapassados estes pormenores logísticos, a co-habitação destes dois seres é pacífica, com excepção das seguintes divisões:
Sala – De vez em quando dou cada salto que até me agarro ao candeeiro pós-moderno do tecto (para os menos entendidos em decoração que desconhecem este termo, consiste numa lâmpada na ponta de um fio). E porquê? Por causa dos gritos que levo pelo meu hábito de jogar PS2 em frente à televisão, completamente centrado em relação à mesma. Claro que isso implica sentar-me sempre no mesmo sítio, fazendo com que o sofá adquira o formato das minhas nádegas. Deformação do mobiliário, diz um, costumização peidal, diz outro. E o arrastar o sofá para os lados, por forma a manter a centralidade em relação à televisão, também não é uma opção bem vista, parece que desgasta o chão...

WC – Graças a esta divisão, fiquei com uma boa ideia do que é viver num colonato judeu, em plena faixa de Gaza! Os meus três pertences (desodorizante, perfume e creme pós-barba) estão completamente cercados por uma panóplia de frascos, bisnagas, caixinhas e outros formatos estranhos, correndo o risco de a qualquer momento serem atacados e riscados do mapa para sempre. Porra, há assim tanta necessidade de ter creme de dia, creme de noite, creme pós-almoço de favas com chouriço, creme para a bochecha esquerda e para a bochecha direita? Aquilo parece tudo igual! E a existirem realmente diferenças, não acredito que sejam visíveis a olho nu. Ando cá com uma vontade de trocar os rótulos só para ver o que acontece... a ela, que a mim sei bem qual seria o meu destino.

Cozinha – É uma divisão que me stressa. Quando ali entro sinto-me como se percorresse um autêntico campo minado. Não só não tenho jeito nenhum para os utensílios que por lá existem, como parece que sou obrigado a saber exactamente a localização de cada peça. Mais! Esperam que eu saiba na ponta da língua que determinada peça não é para arrumar porque pertence a uma das sogras (à dela ou à minha). E etiquetas nas coisas, não? E que tal um mapa estilo directório, como aqueles que existem à entrada dos Centros Comerciais, indicando que as panelas são na gaveta por baixo do fogão, os Tupperware são na gaveta por cima do micro-ondas mas as tampas dos mesmos já são no armário ao pé do frigorífico? Seria uma grande ajuda, sem dúvida.

Quarto – É onde se dão as maiores discussões. Quando a ouço chamar-me “anda cá, vamos fazer aquilo que adoras”, fico logo a tremer de nervoso, pois nunca sei se irei estar à altura. É que é uma matéria em que raramente nos entendemos, e olhem que fazemos aquilo frequentemente, há muitos anos. Ela gosta duma maneira, eu gosto de outra, ela prefere mais para cima, eu prefiro mais para baixo. Ela quer fazer aquilo com calma, eu só penso em despachar aquilo para me pirar dali para fora. Ela reclama que eu aperto muito, eu reclamo que ela não acompanha o meu ritmo. Conclusão: a maior parte das vezes saio disparado e ela termina sozinha, que eu não aguento tanta tensão pelo facto de estar a ser permanentemente avaliado e julgado pelo mínimo gesto. Raios partam os dias em que temos de fazer a cama de lavado...

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

PS: começo a ficar incomodado com o facto de me estarem sempre a dizer que a minha jove deve ser uma santa, por me aturar. Pois bem, da próxima vez que me disserem isso, eu mostro umas fotografias que tirei à cara dela, quando viu a maneira como meti as almofadas dentro das fronhas. Sempre quero ver onde fica a imagem de santidade dela...

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

Expressões estranhas, para não dizer estúpidas – Pregar o olho


Quem é que nunca disse “esta noite não preguei olho por causa da vaca da minha vizinha, era dar-lhe um tiro nos cornos e largá-la à porta do talho, a ver se pelo menos uma vez na vida tinha alguma utilidade, porque com uma língua daquelas alimentava a aldeia de Ranholas por dois meses”?

Fico contente em saber que não fui o único, mas para o objectivo deste poste vamos cingir-nos às cinco primeiras palavras, onde se refere a expressão “pregar o olho”. Por norma, isto é dito por alguém que teve dificuldade ou mesmo impossibilidade em adormecer, facto que é visto como muito grave, nomeadamente em termos de saúde e disposição para os dias que se seguem. Quer então dizer que quem consegue pregar o olho passa a noite descansado, sonhando e babando a almofada, certo? Agora digam-me: tirando os faquires, quem é que consegue dormir com um prego espetado no olho?!? Eu líquidos na travesseira só a minha baba, e mesmo assim tenho de lhe dar umas três voltas por noite para achar um pedacinho ainda seco, agora sangue? E ao acordar, será que a higiene matinal passaria a envolver escova de dentes, máquina de barbear e um arranca pregos?

A ser verdade isto, a indústria farmacêutica sofreria um duro revés, é que em vez das pessoas irem comprar calmantes ou outras tretas para conseguirem dormir, bastava-lhes passar numa loja de ferragens, e tinham o problema resolvido.

E nem vou aprofundar o assunto ao ponto de questionar o tamanho do prego, forma de colocação ou se poderia ou não ser reutilizado, pois tudo me parece entrar no campo do masoquismo! Pregos para dormir só se for na minha vizinha, nariz e boca encostados na almofada e as orelhas pregadas a esta, para impedi-la de gritar. Aí sim, eu dormiria que nem um anjinho, ou teria mesmo o sono dos justos.

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Querias aventura, não querias? Então cala-te!


Tal como me prometi há duas semanas (e porque me apetece), aqui estou eu para falar novamente de viagens. Depois de falar resumidamente das viagens em excursão, mais propriamente dos seus inconvenientes, acho apenas justo dizer que nem tudo são rosas quando decidimos partir à aventura por conta própria, ou pelo menos sem a ajuda de um guia local.

Certamente que muito haveria a dizer sobre este tema, desde a diferença entre a fotografia do hotel que reservamos na Internet e a constatação local, passando pelo calhoal que rodeia o hotel (onde seria suposto ser um areal) e terminando nas dificuldades que por vezes temos em interagir com a fauna local, resistindo muitas vezes a utilizar símbolos universais como o esticar do dedo do meio, quando notamos que nos estão a tentar engrupir. Mas como não me quero esticar (e porque não me apetece), deixo-vos apenas dois exemplos que vivi na pele e não só.

1º Exemplo – Marraquexe
Num dia livre que tivemos, resolvemos ir explorar melhor a cidade. E que melhor forma de nos aculturarmos que fazendo compras no mercado local, para depois petiscar no quarto? Big mistake... a caganeira / vomitadeira que me deu foi tão forte que ainda hoje, passados quase cinco anos, não recuperei o peso que tinha na altura. Apenas umas horas depois de ter comido o pitéu, tornei-me num inquilino em permanência do WC, numa sucessão frenética de evacua / vomita. A certa altura a minha única preocupação era ter o orifício certo virado para a sanita, mas a avaliar pelos uivos de horror que a senhora da limpeza deu pela manhã, nem sempre tive sucesso.
Desde então tenho vivido no temor de que haja algum crime nessa cidade para o qual seja necessário chamar alguma equipa de investigação do género do CSI. É que à quantidade de ADN meu que ficou naquela terra, seria certamente apontado como suspeito número um.

2º Exemplo – Praga
O meu checo não é famoso, ou melhor, o meu conhecimento da língua checa tem sérias lacunas. Como tal, ler uma embalagem ou as indicações nas paredes resulta no mesmo, rezar para que seja aquilo que pensamos. Para os que ainda não a visitaram, em Praga há uma torre famosa, com um relógio fantástico, que é um grande ponto de atracção, tanto para turistas como para carteiristas. Não sei bem porquê mas meti na cabeça que tinha de subir à torre, para poder ter uma visão mais abrangente da praça em que esta se encontra. Procurando a entrada, lá dei com uma porta, com um senhor sentado e um preço para a visita. O custo era irrisório, pelo que nem pensámos duas vezes. Devia ter desconfiado quando em vez de subir começámos a descer mas, na minha ingenuidade, ainda pensei que fosse para tomar balanço. Terminada a descida, foi-me então apresentado o motivo da visita: o esgoto de Praga. O diálogo que se seguiu foi traduzido do inglês:
Rafeiro: Então isto é a torre...
Tipo checo: Não, isto são os esgotos (em actividade) de Praga!
Rafeiro: Desculpe lá, mas tirando o cheiro, qual é o interesse?
Tipo checo: Então, estes esgotos são milenares, veja bem, milenares!
Rafeiro: Estou a ver... mas olhe, ou isto funciona em circuito fechado ou aquele cagalhão que acabou de passar parecia bem recente.

Como podem ver, há perigos em qualquer das escolhas. Mas, pesando bem as duas alternativas, sempre prefiro a segunda, pois pelo menos fui eu que quis ir ver o cagalhão, e não um qualquer guia que depois me conduziria a uma loja de souvenirs para comprar postais do dito. E digo-vos mais, pela forma graciosa e elegante como sulcava as águas, devia ser proveniente duma peidola checa toda jeitosa...

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

Corram, fotografem, comprem, comprem, comprem!


Apesar de uma das minhas máximas de vida ser errar é humano, persistir no erro é ser estúpido, tenho de confessar que numa certa situação já reincidi na asneira: viajar em excursão.

Por norma sou um tipo que gosta de ir à aventura, reservo o transporte e a dormida mas a parte da descoberta deixo por minha conta, com todos os benefícios e riscos que daí resultam. No entanto, por certos e obscuros motivos (prometi aos meus pais e sogra que não os denunciava), por vezes vejo-me no meio de viagens organizadas.

A ironia começa no próprio termo organizado, pois aquilo muitas vezes degenera num autêntico combate de wrestling, mas à séria. Como não fazemos a mínima ideia da restante fauna que vai na viagem, existem sérias possibilidades de nos incompatibilizarmos com alguém, tendo de gramar com a mesma até ao fim, a não ser que consigamos um momento em que ninguém esteja a olhar e a empurremos dalguma ponte que estejamos a visitar. A composição do colectivo da excursão deveria obedecer a critérios similares à constituição dos jurados, sendo que os pretendentes nos seriam previamente apresentados e, após algumas perguntas e observações, considerados aptos ou não para viajarem connosco, sempre com base em critérios justos, como o diâmetro do peito ou a ausência de bafo a bacalhau.

Mas, como infelizmente esta técnica poderia fazer com que eu nunca mais viajasse, resta-me resignar-me ao meu destino e apresentar aqui os aspectos que mais me chateiam neste ramo do turismo.

Autocarro
O delírio começa na escolha dos assentos. Ninguém quer ir lá atrás, onde os gases se acumulam e a passagem por uma lomba mais saliente faz com que as pessoas troquem involuntariamente de lugar. Depois há os pormenores se é do lado em que bate o sol, se é à janela se no corredor, se fica perto das saídas de emergência, enfim, aquilo exige um esforço negocial que coloca os diálogos israelo-palestinianos a um canto. Já uma vez calhei com uma velhota que pretendia implementar um sistema rotativo o qual, certamente por coincidência, faria com que ela nunca apanhasse com o sol na tromba. Posso garantir-vos que chegou ao fim da viagem bem bronzeadinha.

Atrasos
Em todas as paragens que se façam, seja para a mijoca, seja para fazer compras, seja para alguém ir ao gregório ou ocasionalmente para visitar algo, há sempre atrasados. E não se metam aí a dizer "até parece que nunca te atrasas", pois estarão a cometer um erro enorme, além de se arriscarem a levar uma belinha! Para lidar com os palhaços dos retardatários, deveria ser implementado o seguinte esquema:
1º atraso: entrada no autocarro debaixo dos olhares reprovadores dos restantes passageiros e com direito a uma ou outra boca de cariz sexual
2º atraso: motor do autocarro já em funcionamento, bocas ameaçadoras envolvendo a sua peidola e o cabo duma vassoura, mais uns quantos calduços
3º atraso: entrada no autocarro já em andamento, colocação dos passageiros em duas filas para que o atrasado passasse pelo meio. Só não seriam permitidos pontapés nos genitais
4º Atraso: Uma nota no poste mais próximo do ponto de encontro, dizendo “espero que tenhas o programa da viagem contigo, vais precisar dele para saber para onde fomos”

Repórteres
A velocidade destas excursões é tão grande que a maior parte das fotografias têm de ser tiradas no programa de desporto, uma vez que são disparadas em andamento, dentro e fora do autocarro. Quando são tiradas dentro, até pagava para ver a reportagem fotográfica de algumas pessoas que passam a viagem a disparar a máquina com flash direitinho ao vidro, aquilo deve ficar uma beleza (antes que alguém me mande imagens dessas, que fique bem claro que até pagava para ver é uma mera força de expressão). Outra coisa que me causa impressão é a malta que vai numa viagem e tira as suas fotografias recorrendo ao telemóvel. Eu sei que já há equipamentos com uma excelente resolução, mas é uma gota no oceano. Sinceramente, fotografar o Castelo de Neuschwanstein com um telemóvel é o mesmo que ouvir Queen com a cabeça debaixo de água, ver a Nicole Kidman através das calças da Odete Santos ou falar com a Teresa Salgueiro através duma Nikon D70, e acreditem que poderia arranjar exemplos bem mais estúpidos. Depois ainda temos a malta das máquinas de filmar. Como eu gosto de os ouvir dizer “metam-se aí para eu os filmar” e a a família ali muito sossegadinha, à espera da ordem do realizador para se poderem voltar a mexer. O conhecimento do zoom é algo muito limitado, só isso explica que por vezes se veja alguém a filmar um edifício ou monumento fazendo várias passagens com a máquina, como se o estivesse a pintar, não vá algum pedacinho escapar.

Já agora, uma picuinhice minha, aquele pessoal que tira fotografias só com uma mão, mostrando total desprezo pelo que está a fazer. No fundo não estão a captar a beleza do momento, é só mesmo para terem material para colocar no Hi5 ou no blog. Acreditem em mim, pessoal que segura a máquina fotográfica só com uma mão deveria ser espancado, por estar a ultrajar toda uma arte. A única desculpa é se com a outra mão estiver a apertar o pescoço de um carteirista enquanto o pontapeia nos tomates. Neste caso, e apenas neste caso, até é admissível que a fotografia fique ligeiramente desenquadrada ou tremida.

Civismo
Apesar de este ponto dar tecido para muita roupa, vou-me cingir a um pequeno ponto: tirar fotografias onde está um símbolo “NÃO TIRAR”. Isto faz-me um bocado de confusão, por dois lados distintos. Primeiro porque por vezes não se compreende o porquê de não se poder tirar fotografias, mesmo que seja sem flash, isto numa altura em que o Alzheimer é uma ameaça global. Será que têm medo que a malta chegue a casa e tentemos reproduzir a obra fotografada? Ou é simplesmente uma forma descarada de vender os postais que se encontram no final da visita? Quando não há uma explicação lógica ou a lógica é estúpida, compreendo que se evacue nas indicações, o que já não sucede com o uso do flash. Isto porque a expressão só uma vez não deve fazer mal, para além de poder ser utilizada erradamente em muitas outras situações, é utilizada por milhões de energúmenos. Chega a ser impressionante a quantidade de flashes que são disparados contra objectos que notoriamente se deterioram com a exposição excessiva a luzes fortes. Na minha modesta opinião, a actuação dos seguranças deveria passar por exibir, antes da visita começar, um filme que mostrasse o que aconteceria a um turista que desobedecesse à regra de não fotografar com flash:
Quando se desse o disparo com flash, apareceriam quatro seguranças ex-porteiros de discoteca que colocariam a máquina no chão e a espezinhavam. No caso daqueles flashes profissionais, a máquina antes de ser espezinhada era colocada por baixo do fotógrafo
Em seguida obrigariam o autor do disparo a comer o cartão de memória ou a chupar o rolo fotográfico duma só vez (ou duas, no caso dos rolos de 36).
E pronto, um filme com apenas uns segundos e que, garanto, faria com que o número de prevaricadores diminuísse drasticamente...

Guia
Uma excursão não seria digna desse nome sem a presença desta figura. Apesar de lhes reconhecer alguma utilidade, nem que não seja por dominarem o dialecto local, há uns quantos aspectos que poderiam ser melhorados. Para começar, a mania que têm em andar com coisas ridículas para chamarem a atenção, como guarda-chuvas, pastinhas, bandeiras, etc. Não seria mais simples contratarem guias apenas acima dos dois metros? Seria sempre fácil ver onde estavam e sempre haveria menos tendência para a malta se atrasar. A própria utilização de guarda-chuvas para guiar o grupo é arriscada. Não só corremos o risco de ir atrás do modelo errado, como em dias de chuva corremos o risco do grupo se fragmentar em todas as direcções. Eu próprio já tive várias vezes vontade de meter um guarda-chuva no ar e gritar follow me, só para ver quantos japoneses e velhotes conseguia arrebanhar.
A noção de tempo que o guia tem é bastante diferente da minha. Então se falarmos em países africanos ou hispano-americanos, são raros aqueles que não organizam a excursão mediante uma escala em lojas de souvenirs (onde me cheira que têm direito a uma percentagem), com intervalos nos quais conseguimos ver qualquer coisita do que realmente nos levou a embarcar naquela viagem. Chegados aos pontos de interesse, muitas vezes levamos uma seca com dados que não têm interesse nenhum e apenas nos dão 18 segundos para tirar fotografias, pois temos outra loja a visitar, perdão, um plano a cumprir.

Como bons portugueses que somos, temos uma apetência natural para as línguas, o que nos leva a compreender
minimamente a explicação multi-lingue que vai sendo dada. Numa excursão que fiz, fui durante seis horas a ouvir uma guia a falar espanhol, francês, inglês e italiano. Português népias. Quando chegou ao final, aí já se lembrou que iam portugueses lá dentro, bem como de algum vocabulário na língua de Camões, mas apenas o suficiente para pedir uma gratificação para si e para o motorista. Teve de se contentar com um bacalhau e a frase “obrigadinho por não termos tido nenhum acidente, mas gorgetita só se fosse um pontapé na peidola”. E um sorriso sacana, também levou um sorriso sacana...

E assim de repente são estes os aspectos dos quais me lembro (e apetece falar) e que mais me aborrecem numa viagem organizada. Claro que também há inconvenientes em ir em viagens desorganizadas, mas isso fica para quando eu voltar de férias!

Até sempre,
Rafeiro Perfumado

PS: Desculpem lá a extensão do poste, mas ninguém vos obriga a ler isto, pois não? Então não se queixem, pá! E retiro o pedido de desculpas!

Segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Curta 18 - Acordem, neurónios, acordem!


Grandes e pequenos especialistas na matéria alertam para a necessidade de estimularmos constantemente o nosso cérebro, por forma a mantê-lo activo e diminuir a quantidade de neurónios que vão desta para melhor. Estas estimulações, ao que parece, não passam por visualizar pornografia na Internet ou espreitar a vizinha a sair do banho (no meu caso a estimulação poderia ser fatal) mas por fornecer factos novos ao cérebro, procurando quebrar-lhe as rotinas nas quais ele se sente confortável.

E como conseguir isto? Indo para o trabalho por um caminho diferente, lavando os dentes com a outra mão, fazendo sexo com outra mulh... pensando bem, fiquemos pelos dois primeiros exemplos. Consciente disso, hoje de manhã lembrei-me como faço todos os dias sempre os mesmo gestos ao vestir-me. Camisa, calças, gravata e finalmente o casaco. Uma vez que seria estranho vestir primeiro o casaco e só depois a camisa, optei por algo menos radical, enfiar primeiro a perna esquerda nas calças e só depois a direita.

Conclusão: hábitos alterados, bem como a parede do quarto e a minha cabeça, sendo que o colchão da cama também nunca mais vai voltar a ser o mesmo. Não sei se estimulei algum neurónio, mas que os acordei, de certeza!

Até quarta-feira (e acabaram as rapidinhas),
Rafeiro Perfumado

Sexta-feira, 10 de Abril de 2009

Curta 17 - E se fossem poupar para o raio que vos parta?



Gostava de saber quem foi o inteligente que resolveu poupar no tamanho das tampas de plástico de algumas garrafas de água, reduzindo as mesmas a metade, fazendo com que a malta quase não tenha superfície onde agarrar.

É que se antes a jove ainda tentava abrir aquilo, e apenas no caso de não conseguir é que me passava a garrafa, agora não, o vasilhame vem directamente para mim, acompanhado de um sorriso sádico. Fico pois sujeito à pressão de conseguir abrir aquilo sem aparentar qualquer dificuldade, não podendo recorrer à boca ou a algum objecto que esteja à mão, sempre sob o olhar inquisitivo não só da jove mas de toda a gente que me rodeia, atraídos pelos gritos causados pelo esforço.

Talvez quando eu começar a mandar para os fabricantes destas garrafas as facturas das consultas de ortopedia e fisioterapia percebam que nem todas as poupanças são boas! Palhaços!

Até segunda-feira,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Curta 16 – A resposta dos netos de Pitágoras


Pitágoras de Siracusa disse um dia a seus netos
O quadrado da hipotenusa é a soma dos quadrados dos catetos

Penso que toda a gente terá aprendido esta linda mnemónica geométrica. O que eu não compreendo é como é que nunca se pensou no que teriam então dito os netos de Pitágoras perante tal afirmação. Assim, e após um apurado trabalho de investigação histórico/imaginativa, consegui compilar aquelas que terão sido as respostas dos joves:
- Ahã?
- E isso come-se?
- Ó cota, tás mesmo a pedir asilo!
- E se passasses para cá algum em vez de dizeres frases parvas?
- Ó mãe, o avô voltou a não tomar as gotas!
- Avô, é que nem penses que te volto a mudar as fraldas.
- Se pensas que é com falinhas mansas que me convences a sentar ao teu colo...
- Isso deve ter cá um interesse para a minha vida, ui ui!
- Se eu um dia tenho de decorar isso na escola, nem sabes onde vai parar a tua dentadura, pá!
- E se metesses a hipotenusa...

Até sexta-feira,
Rafeiro Perfumado
PS: os puristas matemáticos podem acrescentar um "igual" lá para o meio da expressão, a ver se me importo

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

Curta 15 - A bênção, Sr. Frigorífico


Para mim o frigorífico serve actualmente como um autêntico purificador de consciência ou, visto de um prisma mais religioso, como um confessionário alimentar. Quando sobra alguma comida, tenho sempre problemas de consciência em metê-la no lixo, pelo que opto por guardá-la no frigorífico. Passados uns tempos, vejo que a dita comida já está intragável, mas aí já não me sinto tão mal ao mandá-la fora, pois se não a comi foi porque não tive oportunidade e já está estragada, não porque não quis.

Insondáveis são os caminhos da comida...

Até quarta-feira,
Rafeiro Perfumado

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Curta 14 – Sai uma esplanede quentinha, faxavor!


Esta pérola encontra(va)-se na Praça do Rossio. Fiquei na dúvida se é para captar clientela inglesa ou para promover uma qualquer iguaria.

Até segunda-feira,
Rafeiro Perfumado

PS: só tive pena de não ter conseguido fotografar a primeira versão deste cartaz, “heated esplenede”. No fundo devia ser a mesma coisa, mas com uns pozinhos de canela a decorar

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

Curta 13 – Diário de um imortal


Dia 0
Querido Diário, ainda nem estou bem em mim. Custa-me a acreditar que por ter respondido acertadamente a cinco perguntas no concurso “E tu, pá, queres ser imortal?” ganhei o direito a participar no programa experimental “Imortalidade para sempre”. Como sou a primeira pessoa a experimentar tal coisa, achei por bem registar tudo num diário, para os que me seguirem possam beneficiar da minha experiência. Estou a escrever isto enquanto aguardo que o Doutor acabe o que quer que esteja a fazer no WC, para depois me dar a tal injecção da imortalidade. Estou tão nervoso!!!
PS: Correu tudo bem, pelo menos foi o que o médico disse

Dia 1
Levantei-me bem cedo, para apreciar o nascer do Sol. Hoje pareceu-me mais brilhante, mais magnífico. Realmente a perspectiva com que vemos as coisas altera completamente o seu significado, nunca tinha despendido tempo a apreciar realmente todo o espectáculo que é o surgir do astro-rei.
Passei a manhã toda a organizar a minha colecção de moedas, coisa que nunca pensei ter tempo para fazer. Depois do almoço fui visitar a minha avó e fiquei por lá quase toda a tarde, na conversa. Coitadinha, chamou-me umas quantas vezes de Dona Etelvina, que era a vizinha dela, morta há uma data de anos. A ver se para o mês que vem lá volto...
À noite fui ao cinema, ver “1001 maneiras de ver crescer a relva”, um documentário que já andava para ver há muito tempo!
Deitei-me cansado mas feliz, é tão bom saber que tenho todo o tempo do mundo para fazer tudo o que me der na gana, e várias vezes, se quiser! Até amanhã, querido diário!

Dia 2
Porra, que estou tão aborrecido! E soube agora que o programa experimental foi cancelado!

Adeus, até nunca mais, odeio-vos a todos,
Rafeiro Perfumado

PS: espero que tenham percebido que era mentira de 1 de Abril, ainda não existe a tecnologia que permita tornar as pessoas imortais

Segunda-feira, 30 de Março de 2009

Curta 12 – Eu não, eu não!


Eunuco: homem castrado que guardava as mulheres do harém; homem incapaz de procriar; flauta popular

Esta é a definição de Eunuco, relativamente à qual não vou aprofundar a crueldade de utilizarem essa expressão para designar um tipo de flauta. Intriga-me sim como é que terá surgido esta palavra, mas suspeito que terá sido depois deste diálogo:

Amigo completo: Então e agora, como é que vais conseguir ter sexo?
Amigo castrado: Eu? No cu!

Até quarta-feira,
Rafeiro Perfumado

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

Curta 11 – Geometria das mulheres


Quando a parte abdominal de uma mulher excede a parte peitoral, resta-lhe uma das seguintes alternativas: implantes, exercício, dieta ou ter o bebé. A combinação de duas ou mais destas hipóteses também é aceitável, tudo em prol do restabelecimento do equilíbrio e da harmonia. E de a manter no "mercado", claro...

Até segunda-feira,
Rafeiro Perfumado

Quarta-feira, 25 de Março de 2009

Curta 10 – Digam lá que não sou vosso amigo, gaijas


A maior parte dos homens tem uma paixão tão grande pela limpeza da sua viatura que, se as mulheres fossem espertas, colocavam uma roda em cada canto da casa. Com sorte os tipos ainda pensavam que aquilo era um carro e deixavam tudo num brinquinho!

Até sexta-feira,
Rafeiro Perfumado

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Curta 9 – Por mim bem podem enfiar a política na peidola


Grande dúvida que me aflige: todas as pessoas com quem falo sobre a situação de Portugal afirmam que não querem a continuidade do actual Governo. Dou uma olhadela às sondagens e vejo que esse partido continua à frente destas.

Será que sou eu que conheço poucas pessoas ou as que conheço são todas mentirosas?

Até quarta-feira,
Rafeiro Perfumado

PS: o título é só para deixar bem claro que o texto não tem qualquer conotação política ou indicação do meu sentido de voto. Para mim a salvação deste país passa por algo muito mais profundo do que a acção da nossa actual classe política, seja qual for o partido eleito. Como não é previsível o aparecimento de um Obama e eu não tenho tempo, talvez algo na categoria de um dilúvio seja o ideal para limpar o país.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Curta 8 – A evolução da Medicina Dentária


A evolução da medicina dentária tem levado a que a boca de muita gente se tenha progressivamente enchido com cerâmica e materiais afins. Pela lógica, acho que o próximo passo será os dentistas começarem a recomendar que essas pessoas façam a sua higiene dentária com um piaçaba e no fim bochechem com WC Pato.

Até segunda-feira,
Rafeiro Perfumado

PS: claro que não me esqueci da possibilidade de utilizar na higiene oral também um polidor de metais, mas aí era meter-me com a malta que usa aparelho. E porque é que não o faço? Porque além de serem mais do que as mães, ainda algum me dava uma dentada e eu não tenho a vacina do tétano em dia.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Curta 7 - O Bacalhau quer caminha, o bacalhau quer caminha!


Acho piada quando relativamente a alguém doente e acamado se diz que está de molho. Não sei porquê mas a ideia que me vem imediatamente à cabeça é a pessoa dentro de um alguidar cheio de água, com uma película de sal à tona.

Esta comparação de acamados com um dos pratos favoritos dos portugueses não me parece muito saudável. Quer dizer, então quando metemos um bacalhau de molho na prática estamos a tentar que ele descanse, que melhore a sua saúde? A avaliar pelo estado em que ele está, vai precisar de uns anitos até adquirir uma cor mais agradável. Por outro lado, corremos o risco de chegar a casa, perguntar se o bacalhau está de molho e irmos dar com ele na cama, com um termómetro enfiado algures...

Até sexta-feira,
Rafeiro Perfumado
 
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