Em virtude de não ter lido com atenção a totalidade das
cláusulas do meu contrato de trabalho, de vez em quando sou obrigado a
representar a minha empresa em sessões de apresentação, seminários técnicos e
outras actividades potencialmente danosas para a saúde dos meus neurónios.
Por diversos motivos, entre os quais a cláusula de rescisão
existente no meu contrato, tenho evitado falar aqui de assuntos directamente
ligados com o meu trabalho, mas a situação que vivi recentemente obriga-me a
correr esse risco. Com efeito, a última estucha à qual tive de ir foi um
Seminário no Banco de Portugal, subordinado ao tema das notas de euro, tema só
por si capaz de colocar o cérebro num estado de hibernação quase definitivo.
Mas nem foi propriamente o tema que me chocou, foi a
quantidade de gente que estava na organização daquilo! Chegado à entrada, sou
confrontado com um primeiro controlo:
- Nome, por favor.
- Rafeiro Perfumado, da empresa que não me paga para lhe
fazer publicidade. O meu nome é o que está ali, por baixo do seu dedo...
Olhou para mim, não sei se me conhecia, o certo é que
acreditou no que lhe dizia, apesar de que eu podia ter simplesmente lido o nome
que estava duas linhas abaixo. Enfim, o estranho é que dois passos à frente
encontro novo controlo, nova listinha, desta vez para nos darem a documentação
e apontarem um colega que me iria indicar o local da reunião. O dito colega
estava situado a dois passos de distância (deve ser alguma norma comunitária
que eu desconheço, colocar os funcionários dos bancos centrais a dois passos
uns dos outros), o qual simpaticamente me apontou a porta por onde eu deveria
passar. E ainda bem que o fez, porque a alternativa dava pelo nome de WC, que
teria sido certamente a minha escolha e levado a perder toda a apresentação.
Ao olhar para aquele pessoal todo, não pude deixar de os
visualizar como sacos de dinheiro com pernas, com a inscrição “impostos de
malta como o rafeiro”, pois era de facto impressionante a quantidade de pessoas
da organização.
Já lá dentro, foi a luta contra o sono. Então como era em
anfiteatro, estava sempre a pensar no que seria adormecer, dar uma cabeçada no
tipo da frente e desencadear um efeito dominó, em que o assistente da primeira
fila daria uma cabeçada na fruta do orador.
Não vos vou maçar com o conteúdo do seminário, só que
obedeceu aos critérios normais para ser considerado de sucesso, metendo a cada
duas frases uma expressão em inglês, caso contrário seria logo considerado
garbage. A derradeira fase, a das questões, é para mim a mais tortuosa, onde a
meta da saída está à vista, pois a maior parte das pessoas quer-se pirar, mas
cria-se um silêncio embaraçoso, degenerando num burburinho abafado com questões
que se colocariam caso o Benfica não fosse dar na TV, burburinho esse
felizmente poucas vezes materializado em questões. O pior é quando há um animal
que perde a vergonha, aquilo é como se uma barragem se abrisse, e vai a carneirada
inquisitiva toda atrás. Epá, vão para casa e pesquisem na net, deixem-me ir
embora!
Finalmente, a mania que aquela malta tem com os títulos
académicos. Contei 27 “sô tor”, 18 “Doutor” e 1 “fosca-se, que esta treta nunca
mais acaba”. Adivinhem qual foi a que eu disse...
Até sempre,
Rafeiro Perfumado