
Confesso que, à medida que o tempo passa, tenho vindo a ficar com menos paciência para aturar comportamentos prepotentes. Num país mergulhado em dificuldades, são cada vez mais os casos em que as posições se extremam, fazendo jus ao ditado “em casa onde não há dinheiro, todos ralham até chegar o FMI”.
Neste contexto, envolvi-me recentemente numa troca de palavras com a CP, em virtude da vaga de greves que afectam os seus serviços, greve essa substituída recentemente pela expressão “perturbações”, que na prática significa “podemos fazer o que nos apetecer quando e como quisermos”.
Não pensem por um momento que seja que sou contra o direito à greve, claro que os trabalhadores devem reivindicar melhores condições. No entanto, quando fazer greve se confunde com gozar com as pessoas e/ou prejudica não a empresa mas os seus utentes, a coisa muda de figura. Como sempre me ensinaram que a liberdade de um indivíduo termina onde começa a de outro, algo de muito errado se passa com o sistema que está implementado. Mas para que possam compreender do que falo, aqui fica a troca de e-mails com a CP:
7 de Março 2011 (Rafeiro)
Sou vosso cliente, com passe mensal CP/Metro. Em virtude das greves que têm surgido, e para as quais não são disponibilizadas alternativas de transporte, gostaria de saber o que pretendem fazer:
a) Restituir-me o dinheiro correspondente aos dias em que não consigo apanhar o comboio
b) Estenderem a duração do meu passe pelo número de dias em que não pude utilizar o mesmo
c) Borrifarem-se no assunto
Aguardo com expectativa a vossa resposta.
10 de Março 2011 (CP)
Acusamos a recepção da comunicação de V. Ex.ª, merecedora da nossa melhor atenção.
Lamentamos, desde já, as perturbações ocorridas na circulação.
Trata-se de uma situação resultante do exercício de um direito consagrado na Lei e que transcendeu a vontade da Empresa, pelo que esta ficou limitada no desenvolvimento da sua actividade normal.
Sendo a adesão à mesma uma decisão pessoal dos colaboradores, não foi possível prever com antecedência as implicações da mesma, nem assegurar qualquer serviço alternativo. Por outro lado, embora a CP continue a ter a satisfação do Cliente como uma sua prioridade, a severa contenção de custos que este contexto económico-financeiro obriga, implica uma forte racionalização a este nível.
Informamos ainda que, embora do ponto de vista legal a CP não seja directamente responsável pela situação, a questão de reembolso apenas se coloca em situação de supressão total de circulações, num determinado trajecto, e caso tenha adquirido um título de transporte para viajar especificamente no dia e comboio em causa, antes de ter conhecimento da supressão ou anúncio de greve. Estas condições apenas se aplicam aos portadores de bilhetes simples válidos para o percurso, comboio e data em que se verificou a supressão, não se aplicando às Assinaturas por serem títulos multiviagens, válidos para vários dias.
Reiterando as nossas desculpas nos impactos sofridos, apresentamos os melhores cumprimentos.
10 de Março 2011 (Rafeiro)
Vejo que optaram pela alternativa C, mas vamos ver se eu compreendi. Compro um passe para utilizar os vossos serviços, válido por 30 dias, vocês não prestam o mesmo, sejam lá quais forem os motivos, mas azar, não há cá devolução de dinheiro para ninguém nem possibilidade de usar os serviços noutro dia qualquer.
Apliquemos essa brilhante forma de gestão noutro contexto. Imaginem que eu fazia uma avença com uma casa de alterne, para poder utilizar os serviços da Etelvina, a melhor prostituta lá do sítio. Chegado ao local, era informado pelo chulo que a Etelvina estava doente, com gonorreia, pelo que não me poderia prestar os serviços contratados, sendo que também não seria possível oferecer qualquer alternativa. O que é que vocês acham que aconteceria? Devolviam-me o dinheiro, pediam para lá voltar noutro dia ou simplesmente me diziam que tivesse paciência, mas o dinheiro tinha sido gasto em vão?
E espero que tenham percebido qual o papel atribuído à CP nesta história. É que receber dinheiro de clientes, não lhes fornecer os serviços devidos e não dar qualquer alternativa (devolução do dinheiro ou prestação dos serviços em outra data) só pode ter um nome.
E agora aguardo pacientemente pela resposta.
Até sempre,
Rafeiro Perfumado